12 de nov de 2013

Resumo: 10 HISTÓRIAS INSÓLITAS, de Machado de Assis

RESUMO DOS CONTOS INSÓLITOS:
1- CHINELA TURCA: Em A chinela turca é por intermédio da visão que a “realidade” se confunde com o sonho. As transições são calcadas na visão.

A história se passa na cidade do Rio de Janeiro, no ano de 1850. O bacharel Duarte prepara-se para ir a um baile, onde encontrará uma jovem com quem está a namorar há pouco tempo, quando lhe anunciam a visita do major Lopo Alves, velho amigo da família. Causa-lhe horror a visita àquela hora. O major vem lhe dar a notícia de que acabara de escrever um drama. O bacharel custa a crer que isso realmente estava acontecendo com ele, naquela hora da noite, só pensava em Cecília. Empalideceu quando viu o major abrir o rolo que trazia, seria breve na leitura, afinal não passava o drama de cento e oitenta folhas manuscritas. O major começou a leitura, o bacharel mergulhou o corpo e o desespero numa vasta poltrona de marroquim, resoluto a não dizer palavra para ir mais depressa ao termo.
O drama dividia-se em sete quadros. Os sentimentos do bacharel não faziam crer tamanha ferocidade; mas a leitura de um mau livro é capaz de produzir fenômenos ainda mais espantosos.
Neste momento o escritor está preparando o leitor para viver o imaginário que a partir deste ponto da obra vai ser criado pelo bacharel.
Voava o tempo, e o ouvinte já não sabia a conta dos quadros... De repente, viu Duarte que o major enrolava outra vez o manuscrito, erguia-se, empertigava-se, cravava nele uns olhos odiendos e maus, e saía arrebatadamente do gabinete... autor e drama tinham desaparecido. Por que não fez ele isso há mais tempo?
Mal tem tempo de suspirar com alegria, quando o empregado vem anunciar-lhe outra visita. Era a polícia!
Era acusado de furtar uma chinela turca, preciosa. Duarte suspeitou que o homem fosse doido ou um ladrão. Não teve tempo de examinar a suspeita, viu entrar cinco homens armados, que lhe levaram. Meteram-no à força em um carro e partiram.
No carro, os homens confirmam as suspeitas de Duarte, eles não eram da polícia. Chegaram a uma bela casa. Duarte já achava que a chinela vinha a ser pura metáfora; tratava-se do coração de Cecília, que ele roubara, delito de que o queria punir o já imaginado rival. Na casa um homem misterioso apresenta-lhe uma linda moça, muito parecida com Cecília. O homem diz-lhe que três coisas Duarte vai fazer: casar, escrever o seu testamento; e engolir certa droga do Levante...
Possuía uma pequena fortuna, deixaria tudo para a moça e depois morreria. Não, não se casaria.
Ao ser chamado, entra um padre, que olha para ele de modo esquisito. Num momento de distração, o padre revela-lhe que era tenente do exército e que ele deveria pular a janela e fugir.
Duarte não hesitou, pulou a Deus misericórdia por ali abaixo. Deu com um segurança, fechou os punhos e bateu com eles violentamente nos peitos do homem e deitou a correr. O homem não caiu. Começou então uma carreira vertiginosa.
Cansado, ferido, ofegante, caiu nos degraus de pedra de uma casa. Um homem que ali estava, lendo um número de Jornal do Comércio, pareceu não o ter visto entrar. Duarte fitou os olhos no homem. Era o major Lopo Alves.
O major exclamou repentinamente: Fim do último quadro.
Duarte olhou para ele, esfregou os olhos, respirou à larga. O major pergunta-lhe “Que tal lhe parece?” “Ah! Excelente!” Respondeu o bacharel, levantando-se. “Paixões fortes, não?” Pergunta-lhe o Major. “Fortíssimas”, responde Duarte.
O Major despediu-se, eram duas horas. Duarte respirou fundo, foi até a janela e disse para si mesmo: - “Ninfa, doce amiga, fantasia inquieta e fértil, tu me salvaste de uma ruim peça com um sonho original, substituíste-me o tédio por um pesadelo: foi um bom negócio. Um negócio e uma grave lição: provaste-me que muitas vezes o melhor drama está no espectador e não no palco.”

2- A IGREJA DO DIABO: Certo dia o Diabo teve a grande ideia de fundar uma igreja pois estava cansado de ter tantos súditos e não ter organização, um ritual, enfim estava cansado de não ter regras.O Diabo pensava que ao abrir uma igreja, estaria destruindo de vez todas as outras religiões,enquanto as outras se combatiam e dividiam,a igreja do      Diabo seria única.Decidido isso ele foi aos céus avisar a Deus e desafiá-lo.
Chegando ao infinito azul, o Diabo encontrou Deus e o comunicou sobre a Igreja dizendo que faria todos os humanos negares suas virtudes e desceu a terra para colocar seu plano em prática.
Uma vez na Terra o Diabo não perdeu um minuto, entrou para espalhar uma doutrina nova e extraordinária. Prometeu a seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias. Confessava que era o Diabo para provar para os seres humanos que ele não era tudo que Deus falava e que também era um pai e podia dar tudo que fosse pedido. A multidão veio mesmo aos seus pés.
Ele clamava que as virtudes aceitas deveriam ser substituídas pelas naturais e legítimas. A soberba, a luxuria, a preguiça foram reabilitadas e assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia. A ira e a gula agora eram muito bem vistas.
Quanto a inveja, pregou friamente que era a virtude principal, preciosa, que chegava a suprir todas as outras.
Ele chamava a fraude de braço esquerdo do homem, o direito era a força.
A demonstração mais rigorosa e profunda foi à venalidade, dizia ele que era o exercício de um direito superior a todos os direitos. Se você pode vender a sua casa, o seu boi, porque não pode vender sua opinião? o teu voto, tua fé? Coisas que são mais do que sua, porque são sua própria consciência, isto é, tu mesmo?
E assim o Diabo descia e subia, examinava tudo. Todas as formas de respeito foram condenadas por eles, a única exceção do interesse.
Para arrematar a obra entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade humana. Não se devia dar ao próximo nada, a não ser a indiferença e em alguns casos, ódio ou desprezo. A única hipótese que lhe permitia amar ao próximo era quando se tratasse de amar a mulher alheia.
As pessoas foram chegando e a igreja fundara-se, a doutrina propagara-se, não havia ninguém que a não conhecesse, uma língua que não a traduzisse, uma raça que não a amasse.
O Diabo alcançou brados de triunfo.
Muitos anos depois o Diabo notou que muitos dos seus fies, às escondidas praticavam as antigas virtudes, não todas nem integralmente, mas principalmente ligação a dias católicos e esmolas.
A descoberta assombrou o Diabo pois haviam casos em todos os lugares.
Não se deteve um instante, voou de novo ao céu, tremulo de raiva, ansioso para conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno.
Deus o ouviu calmamente, não o interrompeu, não o surpreendeu, não triunfou, sequer daquela agonia satânica.
Pôs os olhos nele e disse-lhe:

- Que queres tu? É a eterna contradição humana.

3- A SERENÍSSIMA REPÚBLICA
Publicado primeiramente na "Gazeta de Notícias" em 20 de agosto de 1882, depois incluído no livro Papéis avulsos, "A Serenissima República" é mais um daqueles contos de Machado de Assis em que parece ter, à primeira vista (e só à primeira vista...), um sentido restrito — no caso, "as nossas alternativas eleitorais" — que é logo captado e entendido por qualquer leitor, não obstante a forma alegórica como elas são mostradas.

A história começa com um narrador que pede atenção para uma descoberta da ciência brasileira superior a uma outra, promovida por um sábio inglês, que teria sido publicada em O Globo – jornal republicano e de orientação cientificista. A propósito, John Gledson observa que é bastante provável que o artigo mencionado no conto não tenha existido e conclui que a citação desse artigo é uma sátira contra O Globo. E é considerando o contexto dessa sátira ao cientificismo do jornal O Globo que Machado questiona o materialismo científico em voga na época quando faz o cônego Vargas embasar a sua descoberta numa citação de Darwin e Büchner, reputando-os “sábios de primeira ordem”, mas sem absolver “as teorias gratuitas e errôneas do materialismo”. Frise-se: Machado questiona, mas, como era seu costume, não se posiciona, deixa a questão em aberto. Em um primeiro nível de significação, a narrativa do cônego Vargas pode ser lida como uma tentativa de valorizar a produção científica nacional e como um questionamento do materialismo científico em voga no final do século XIX.

Como não poderia deixar de ser em Machado, o conto é uma crítica: crítica ao processo eleitoral, feita como um discurso de um cônego, que afirma ter achado uma espécie de aranha que fala, e ter criado uma sociedade delas, chamada "Sereníssima República". Ele escolhe o sistema de eleição baseado no da República de Veneza, onde se retirava de um saco bolas com o nome dos eleitos. Este sistema vai sendo fraudado pelas aranhas, corrigindo-se, adaptando-se e variando-se diversas vezes e de diversos modos, eternamente corrupto.

Na vigorosa sátira política ao sistema eleitoral brasileiro formulada por Machado, o cônego Vargas tenta, com sucessivos experimentos, dar organização social às aranhas. O conto termina sem que essa pretensão tenha sucesso, uma vez que as facções políticas e individualidades em confronto sempre darão um jeito de burlar os sistemas eleitorais instituídos. Roberto Da Matta, aliás, é um dos admiradores entusiastas desse conto e certa feita sentenciou: "como diria um dos meus escritores brasileiros favoritos, o velho Machado de Assis, 'a sereníssima República do Brasil' continua repousando em berço esplêndido, tocada pelas mesmas sestas que transformavam o Brasil nas leis e não nas suas práticas sociais mais arraigadas". Até aí, tudo bem, dentro de certas normalidade e formalidade narrativas. Mas trata-se de Machado, afinal, e recomenda-se ao leitor cuidadosa leitura, prestar atenção ao articulado processo político que está sendo construído, principalmente, quando o narrador lança mão de recursos que podem provocar "audaciosas interpretações...".

E como se trata de Machado, nada é somente o que parece ser, à primeira vista e à primeira leitura: seu contumaz narrador — em primeira-pessoa —, a par da crítica política, faz uma inquirição a respeito da alma exterior do homem. Por meio de uma alegoria eleitoral, sob a forma de uma conferência de um cientista, Machado discursa a respeito do homem e da sociedade que ele constrói — algo como sendo o homem de múltiplas faces, cabe buscar a perfeição, tentar driblar a própria natureza; para tanto, não importam os outros ,e sim seu interesse pessoal, e aqui manifesta-se, mais uma vez, um tema caro a Machado: a discussão sobre a Ciência e a Filosofia, já feita por exemplo em O alienista e em contos como "A causa secreta" — ambos críticos com relação às correntes filosóficas em voga na segunda metade do século XIX (o determinismo, o cientificismo, etc.) e como a ciência (aliada ao poder político) pode levar o homem a se perder na variedade inexplicável dos indivíduos.

Mas como sempre em Machado, também em "A Sereníssima República" pode-se perceber a intenção do autor em analisar as cruéis relações de dominação entre seres iguais, todos subjugados por um sistema político e social marcado pelo autoritarismo, mas que não hesitam em reproduzir e legitimar a opressão de que são vítimas.

ad eternum, o que mais interessa a Machado não é a denúncia explícita e panfletária de certos males da sociedade brasileira, como o sistema político e eleitoral, as diferenças sociais, a escravidão ou a violência, mas retratar (e levar o leitor à reflexão) o modo pelo qual esses males se agregam ao cotidiano das relações humanas. 

Como todos sabemos, o que de mais significativo se extrai da leitura dos contos de Machado de Assis é a impossibilidade de respostas prontas e acabadas diante do mistério essencial que habita o ser humano e que responde pela motivação de muitos de seus atos.

4- UM ESQUELETO
Em uma praia, 10 ou 12 rapazes estavam reunidos. Conversavam sobre vários assuntos, até que um deles resolveu elogiar a língua alemã, e outro concordou. Assim, Alberto disse que aprendera alemão com o Dr. Belém, um homem que escrevera um livro de teologia, um romance e descobrira um planeta. Não encontrou editor para os livros, e a carta enviada para atestar a descoberta do planeta perdera-se.

O narrador obtém a atenção de todos quando prova a excentricidade do Dr. Belém contando-lhes a história de um esqueleto.

Em Minas Gerais, um dia Alberto conversava com o Dr. Belém, na porta da casa deste. Alberto perguntou se o Dr. Belém já tinha sido casado e este disse-lhe que fora casado. Dr. Belém convidou Alberto para ir até seu gabinete lá mostrou ao jovem o esqueleto de sua primeira esposa. Alberto ficou aterrorizado. Porém o jovem deu uma nova idéia ao Dr. Belém: o casamento. Dr. Belém escolheu a jovem viúva D. Marcelina para ser sua nova esposa. Embora ela tivesse apenas 26 anos e fosse cortejada pelo tenente Soares, Dr. Belém durante três meses insistiu no pedido de casamento. D. Marcelina sempre negou. Porém, passados os três meses, D. Marcelina aceita o pedido de casamento do Dr. Belém. Todos estranharam tal união, não era por dinheiro, tampouco por amor pensavam os convivas.

Dr. Belém tinha 50 anos, mas aparentava 60, vestia-se de forma estranha e devido à sua aparência física era chamado de defunto ou lobisomem. No entanto, o casamento aconteceu e Dr. Belém transformou-se. Passou a vestir-se conforme o gosto da esposa, e sua casa encheu-se de alegria Alberto era o único o freqüentar-lhes a casa, assim convivia com a alergia daquela morada. Um dia, não podendo ficar para almoçar na casa do casal, pediu para ficar algum tempo no gabinete para terminar a leitura de um romance. Estranhou o silêncio do casal e, ao ir despedir-se, viu que, à mesa, sentado com o casal estava o esqueleto. Horrorizado com aquela cena, decidiu não freqüentar mais aquela casa. Entretanto, um dia Dr. Belém cobra-lhe a visita e diz-lhe que o amigo deveria fazer-se presente na casa do casal. Alberto decide ir, pois ele era a única pessoa normal com quem D. Marcelina tinha contato.

Além das três pessoas, durante um jantar, estava à mesa o esqueleto. Alberto percebe o constrangimento de D. Marcelina e pede ao amigo uma explicação para aquela situação absurda. Dr. Belém diz-lhe que queria que as duas esposas se dessem bem ou que a primeira serviria do exemplo à segunda. Dr. Belém contou que matou sua primeira esposa com as próprias mãos, pois ela o traíra. Uma carta anônima tinha denunciado o adultério. Porém, mais tarde, Dr. Belém soube que mora um engano, uma mentira. Não houve traição, mas a primeira esposa, Luisa, deveria servir como exemplo à segunda caso esta não cumprisse suas obrigações de esposa. Alberto deixa a casa do casal disposto a não voltar mais.

Não entendeu aos chamados do amigo, mas, em 15 dias, recebeu um bilhete de D. Marcelina, que dizia que ele em a única pessoa normal com quem tinha contato. Apiedou-se da jovem Senhora e lá foi. Surpreendeu-se com um anúncio e um pedido. Dr. Belém diz-lhe que fará uma viagem ao interior e pede-lhe para fazer companhia a sua esposa. Temeroso, Alberto diz não ao pedido, mas não havia outra pessoa. Assim, Alberto faz a irmã e o cunhado hospedarem a esposa do Dr. Belém. Passados alguns dias, Dr. Belém manda-lhes uma carta, pedindo que Alberto levasse ao seu encontro D. Marcelina. Mais uma vez, Alberto convence a irmã e o cunhado a viajarem ao encontro do Dr. Belém. Era indispensável que levassem com eles o esqueleto. Ao completarem a viagem a esposa e o esqueleto são entregues ao Dr. Belém. Ao despedirem-se, a fim de voltar a cidade, o Dr. Belém persuade a todos a esperarem por ele. No outro dia pela manhã, Dr. Belém convida sua esposa e o amigo Alberto para um passeio na floresta. Alberto seguia o casal que caminhava em silêncio. Quando chegaram a uma clareira, lá estava sentado o esqueleto, Dr. Belém tirou uma carta do bolso e disse aos jovens que sabia de tudo, que eles não o enganariam mais. D. Marcelina começou a chorar e Alberto, em vão, tentava explicar a situação. Até que Dr. Belém disse que entendia tudo, pois eles eram jovens e amavam-se e por isso deveriam ficar juntos. Dito isso, agarrou-se ao esqueleto e correu para a mata. Alberto não o pode perseguir, pois precisou auxiliar D. Marcelina que se desesperava. Dr. Belém recebera a carta do tenente Soares, porque este estava despeitado devido à escolha da jovem.

Todos os rapazes escutaram a história com a maior atenção e um deles disse a Alberto que o Dr. Belém era verdadeiramente um doido. Alberto nu e disse-lhe que o Dr. Belém teria sido um doido se tivesse existido.


5- A MULHER PÁLIDA


6- A VIDA ETERNA


Esta é apenas a parte um, as demais se encontram no Youtube. Basta dar uma passadinha por lá.

7- UM SONHO E OUTRO SONHO


8- UMA EXCURSÃO MILAGROSA
Click aqui para ler o conto

9- SEM OLHOS
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10- O PAÍS DAS QUIMERAS
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3 de nov de 2013

A SANTA INÊS: O VERSO DO APÓSTOLO DO BRASIL

PAES 2013: “A SANTA INÊS”, PE. JOSÉ DE ANCHIETA

Literatura Jesuítica
As conquistas expansionistas europeias possuíam um duplo ensejo: ao espírito capitalista-mercantil associavam certo ideal religioso e salvacionista. Por essa razão, dezenas de religiosos acompanhavam as expedições a fim de converter os gentios.
            Como consequência da Contrarreforma, chegam, em 1549, os primeiros jesuítas ao Brasil. Incumbidos de catequizar os índios e de instalar o ensino público no país, fundaram os primeiros colégios, que foram, durante muito tempo, a única atividade intelectual existente na colônia.
            Primeiros traços de literatura:
            Do ponto de vista estético, os jesuítas foram responsáveis pela melhor produção literária do Quinhentismo brasileiro. Além da poesia de devoção, cultivaram o teatro de caráter pedagógico, inspirado em passagens bíblicas, e produziram documentos que informavam aos superiores na Europa o andamento dos trabalhos.
O instrumento mais utilizado para atingir os objetivos pretendidos pelos jesuítas (moralizar os costumes dos brancos colonos e catequizar os índios) foi o teatro. Para isso, os jesuítas chegaram a aprender a língua tupi, utilizando-a como veículo de expressão. Os índios não eram apenas espectadores das peças teatrais, mas também atores, dançarinos e cantores.
            Principais jesuítas no Brasil:
            Os principais jesuítas responsáveis pela produção literária da época foram o padre Manuel da Nóbrega, o missionário Fernão Cardim e o padre José de Anchieta.

JOSÉ DE ANCHIETA
Nascido em 1534 na ilha de Tenerife, Canárias, o padre da Companhia de Jesus veio para o Brasil em 1553 e fundou, no ano seguinte, um colégio na região da então cidade de São Paulo. Faleceu na atual cidade de Anchieta, litoral do Espírito Santo, em 1597.
Conhecido como o grande piahy ("supremo pajé branco"), Anchieta deixou como legado a primeira gramática do tupi-guarani, verdadeira cartilha para o ensino da língua dos nativos (Arte da gramática da língua mais usada na costa do Brasil). Destacou-se também por suas poesias e autos, nos quais misturava a moral religiosa católica aos costumes dos indígenas.        Entre as peças de teatro da época, destaca-se o Auto de São Lourenço, escrita pelo padre José de Anchieta. Nela, o autor conta em três línguas (tupi, português e espanhol) o martírio de são Lourenço, que preferiu morrer queimado a renunciar a fé cristã. Anchieta intentou conciliar os valores católicos com os símbolos primitivos dos habitantes da terra e com aspectos da nova realidade americana. O sagrado europeu ligava-se aos mitos indígenas, sem que isso significasse contradição, pois as ideias que triunfavam nos espetáculos eram evidentemente as do padre. A liberdade formal das encenações saltava aos olhos: o teatro anchietano pressupunha o lúdico, o jogo coreográfico, a cor, o som.
A obra do padre Anchieta também merece destaque na poesia. Além de poemas didáticos, com finalidade catequética, também elaborou poemas que apenas revelavam sua necessidade de expressão. Os poemas mais conhecidos de José de Anchieta são: “Do Santíssimo Sacramento” e “A Santa Inês”.

A SANTA INÊS: O VERSO DO APÓSTOLO DO BRASIL

Objetivo geral:
Converter os índios e manter o catolicismo entre os colonos.
CARACTERÍSTICAS GERAIS:
Poesia como recurso didático;
Incentivo à prática da fé religiosa;
Linguagem simples visando maior alcance religioso;
A temática do poema revela o confronto entre o bem e o mal: a chegada da Santa espanta o mal e revigora a fé do povo.
Características de anunciação da fé religiosa que prenuncia características barrocas: o uso da antítese “pecado X perdão” é um exemplo. Aceitar o exemplo a Santa é sair da escuridão e entrar na luz.
Nota explicativa: Inês: mártir da Igreja do século IV. Jovem romana, foi decapitada por ter se recusado a perder a virgindade. É considerado o símbolo e a guardiã da castidade cristã.
José de Anchieta foi um jesuíta que na sua fé buscava a salvação na Santa Eucarística. O jesuíta, em servos, explorava a musicalidade com o objetivo de facilitar a memorização. A linguagem utilizada por ele é simples, sendo esta a sua principal preocupação, tendo com isso, o objetivo de mostrar uma ideia medieval, centrada no catolicismo.
A estrutura do poema:
Dividido em três partes, sendo que a primeira parte é composta por nove versos e quatro estrofes; a segunda é composta por dez versos e quatro estrofes e a última parte tem cinco versos e quatro e cinco estrofes.
No poema o autor utiliza "rimas cruzadas" que são aquelas que se alternam num quarteto de modo que o primeiro verso rima, com o terceiro, e o segundo rima com o quarto.
Na terceira parte utiliza rimas enlaçadas, ou seja, o primeiro verso rima com o quarto e o segundo e terceiro versos rimam em parelha.
Linguagem e recursos:
Pe. José de Anchieta exalta a santa por meios de adjetivos, metáforas e substantivos. Quando o autor se refere à santa como "padeirinha", "pão", "massa", "trigo", "doce bolo", "trigo sem farelo", o autor que dizer que assim como o alimento é essencial à vida, e precisa-se dele para viver, a Santa Inês é como se fosse o alimento para a alma e o homem precisa dela.
Também, utilizando a metáfora, ele se refere à santa como "mesinha", ou seja, remetendo a ideia de que a santa é o remédio que vai curar o povo.
No imagístico, o autor chama a santa de "rainha", o que intensifica a ideia de santidade da devota católica.
A Santa Inês, também é chamada de "cordeirinha", ou seja, ela é obediente, serva de Deus. Virgem, sem mácula, e sem nenhum farelo, ou seja, pura. O uso do diminutivo explora o tratamento afetuoso.
Pe. José de Anchieta também menciona o povo em seu poema, fazendo acusações sobre eles, de não andarem famintos pelo trigo novo, (Santa Inês), chamando povo de tolo e clama ajuda da santa para vir como remédio sarar, curar o povo. Acusa ainda o homem de não ter miolo: o “miolo” refere-se à essência, afinal, sem as referências católicas o homem não é nada; é néscio, pois, é um pecador e não tem fome do "pão novo".

Segue o texto:


I - Cordeirinha linda,
como folga o povo
porque vossa vinda
lhe dá lume novo!
Cordeirinha santa,
de Iesu querida,
vossa santa vinda
o diabo espanta.
Por isso vos canta,
com prazer, o povo,

porque vossa vinda
lhe dá lume novo.
Nossa culpa escura
fugirá depressa,
pois vossa cabeça
vem com luz tão pura
Vossa formosura
honra é do povo,
porque vossa vinda
lhe dá lume novo.
Virginal cabeça
pela fé cortada,
com vossa chegada,
já ninguém pereça.
Vinde mui depressa
ajudar o povo,

pois com vossa vinda
lhe dais lume novo.
Vós sois, cordeirinha,
de Iesu formoso,
mas o vosso esposo
já vos fez rainha.
Também padeirinha
sois de nosso povo,
pois, com vossa vinda,
lhe dais lume novo. 
II - Não é d’Alentejo
este vosso trigo,
mas Jesus amigo
é vosso desejo.
Morro porque vejo
que este nosso povo
não anda faminto
deste trigo novo.
Santa padeirinha,
morta com cutelo,
sem nenhum farelo
é vossa farinha.
Ela é mezinha
com que sara o povo,
que, com vossa vinda,
terá trigo novo.
O pão que amassastes
dentro em vosso peito,
é o amor perfeito
com que a Deus amastes.
Deste vos fartastes,
deste dais ao povo,
porque deixe o velho
pelo trigo novo.
Não se vende em praça
este pão de vida,
porque é comida
que se dá de graça.
Ó preciosa massa!
Ó que pão tão novo
que, com vossa vinda,
quer Deus dar ao povo!
Ó que doce bolo,
que se chama graça!
Quem sem ele passa
é mui grande tolo,
Homem sem miolo,
qualquer deste povo,
que não é faminto
deste pão tão novo!
 III - CANTAM:
Entrai ad altare Dei
virgem mártir mui formosa,
pois que sois tão digna esposa
de Iesu, que é sumo rei.
Debaixo do sacramento,
em forma de pão de trigo,
vos espera, como amigo,
com grande contentamento.
Ali tendes vosso assento.
Entrai ad altare Dei,
virgem mártir mui formosa,
pois que sois tão digna esposa
de Iesu, que é sumo rei.
Naquele lugar estreito
cabereis bem com Jesus,
Pois ele, com sua cruz,
vos coube dentro no peito,
ó virgem de grão respeito.
Entrai ad altare Dei,
virgem mártir mui formosa,
pois que sois tão digna esposa
de Iesu, que é sumo rei.



PAES 2013 – Análise literária: "HISTÓRIA DA PROVÍNCIA DE SANTA CRUZ A QUE VULGARMENTE CHAMAMOS BRASIL"

Sobre o autor
Pero Magalhães de Gândavo (Braga,1540 - Portugal, 1579).
Sabe-se pouco sobre Pero de Magalhães de Gândavo. Nasceu em Braga, norte de Portugal. Tem este nome porque sua família veio de Gand, próspera cidade flamenga de Flandres (hoje Bélgica). Foi amigo de Luís de Camões. Escreveu uma gramática com regras da língua portuguesa.
Pero teria estado no Brasil na década de 1560. Dessa viagem resultou o Tratado da província do Brasil, que, numa versão posterior, ganharia o título de Tratado da terra do Brasil e, finalmente, numa terceira versão passaria a chamar-se História da província Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil. O projeto inteiro  ocupou dez anos de sua vida. Tanto título e tanto tempo de trabalho se justificam, provavelmente, porque o Tratado já não podia dar conta da grandeza e complexidade em que se transformara o Brasil, tarefa reservada á solenidade da História.  Assim, somente em 1576 entregou a uma tipografia o que foi a terceira e definitiva versão de "História da Província de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil". Esta obra é considerada a primeira sobre a história do Brasil. Nome que, aliás, detestava, por julgar sua referência à mera tintura. Pero de Magalhães de Gândavo esteve no Brasil, provavelmente, entre 1558 e 1572.
Pero de Magalhães de Gândavo é o pioneiro de uma longa e nobre linhagem de descritores do Brasil. Sabe-se que foi membro da corte de D. Sebastião, onde desempenhava as funções de “Moço de Câmara”, uma espécie de Ajudante de Ordens, como se diz no exército. E que, além disso, trabalhou como copista na Torre do Tombo. Nos termos técnicos da época, “que trasladava livros”. Sabe-se ainda, mas não muito mais, que foi
nomeado “Provedor da Fazenda” em Salvador, mas não há registro de que tenha  assumido tal cargo.
Típico renascentista, Gândavo é homem de gabinete e de aventura. Quanto ao  primeiro aspecto, é autor de umas Regras que ensinam a maneira de escrever e  ortographia da língua portuguesa, publicadas em 1574, pela mesma “Ophicina” de  Antonio Gonsalvez. O mesmo editor que, dois anos antes, dera a público Os Lusíadas, de Luiz de Camões, de quem Gândavo era admirador e amigo, e dois anos depois publicaria sua versão definitiva da História da província Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil.
Sua escrita possui clara finalidade de estimular a emigração portuguesa.

QUINHENTISMO
Quinhentismo é a denominação genérica de todas as manifestações literárias ocorridas no Brasil durante o século XVI, no momento em que a cultura europeia foi introduzida no país. Note que, nesse período, ainda não se trata de literatura genuinamente brasileira, a qual revele visão do homem brasileiro. Trata-se de uma literatura ocorrida no Brasil, ligada ao Brasil, mas que denota a visão, as ambições e as intenções do homem europeu mercantilista em busca de novas terras e riquezas. As manifestações ocorridas se prenderam, basicamente, à descrição da terra e do índio, ou a textos escritos pelos viajantes, jesuítas e missionários que aqui estiveram.
Literatura Informativa
A Carta de Caminha inaugura o que se convencionou chamar de Literatura Informativa sobre o Brasil. Este tipo de literatura, também conhecido como literatura dos viajantes ou literatura dos cronistas, como consequência das Grandes Navegações, empenha-se em fazer um levantamento da “terra nova”, de sua floresta e fauna, de seus habitantes e costumes, que se apresentaram muito diferentes dos europeus. Daí ser uma literatura meramente descritiva e, como tal, sem grande valor literário.
Literatura informativa HOJE
Para o leitor de hoje, a literatura informativa satisfaz a curiosidade a respeito do Brasil nos seus primeiros anos de vida, oferecendo o encanto das narrativas de viagem. Para os historiadores, os textos são fontes obrigatórias de pesquisa. Mais adiante, com o movimento modernista, esses textos foram retomados pelos escritores brasileiros, como Oswald de Andrade, como forma de denúncia da exploração a que o país sofrera desde então.
Veja os principais documentos que compõem a nossa literatura informativa:
1. Carta do descobrimento (Pero Vaz de Caminha): foi escrita no ano de 1500 e publicada pela primeira vez em 1817.
2. Tratado da terra do Brasil (Pero de Magalhães Gândavo): foi escrito por volta de 1570 e impresso pela primeira vez em 1826.
3. História da Província de Santa Cruz, a que vulgarmente chamamos Brasil (Pero de Magalhães Gândavo): foi editado em 1576.
4. Diálogo sobre a conversão dos gentios (Padre Manuel da Nóbrega): foi escrito em 1557 e impresso em 1880.
5. Tratado descritivo do Brasil (Gabriel Soares de Sousa): escrito em 1587 e impresso por volta de 1839.

A História da Província Santa Cruz ultrapassa as raias de um mero relato de viagem, pois oferece um amplo quadro dos primórdios da colonização. Assim, os textos de Gândavo colaboram para a divulgação do Brasil desde 1576. Desse modo, Pero de Magalhães Gândavo, juntamente com Caminha, testemunha a formação do país e do povo brasileiro, ao traduzir a realidade que brotava do aparente paraíso.


História da Província de Santa Cruz, a que vulgarmente chamamos Brasil: resumo
No seu primeiro capítulo, o cronista vem descrever como se deu o descobrimento da província e por que razão que ela passou a se chamar de Santa Cruz e não de Brasil.
O segundo capítulo foi retirado da versão de estudos proposta pela Unimontes.
O terceiro capítulo refere-se as oito mais importantes capitanias dos portugueses na província; como se portavam os moradores daquele lugar; como se defendiam contra os inimigos; como eram os índios que ali estavam e sobre a dizimação de muitos deles pelos moradores que ali chegaram.
No seu quarto capítulo o autor trata sobre a forma de administrar essas províncias, com seus governantes, através da divisão dos poderes no norte e no sul das capitanias, com o melhoramento das edificações, a divisão do trabalho dentro delas e o espírito solidário e cooperativo entre eles.

PROPAGANDA QUINHENTISTA
Gândavo é o primeiro autor quinhentista a elaborar a experiência do conhecimento das terras brasileiras com o objetivo de publicá-la. Provavelmente, enquanto navegava longas distâncias entre as capitanias hereditárias, como provedor da capitania baiana, não deixava de tomar notas das cousas principais da terra e dos índios.
O objetivo que palpita nos textos gandavianos é muito claro: a divulgação do Brasil com a intenção de atrair o maior número de pessoas para a colônia no além-mar. A cada etapa os tópicos vão sendo detalhados, enriquecidos com informações cada vez mais precisas.  
 Ao longo do texto, várias interpretações sobre a vida e os costumes dos índios aparecem esparsas. Para ele, os habitantes vivem em uma terra “sem Fé, nem Lei, nem Rei”.
“A lingoa de que usam, toda pela costa, he huma: ainda que em certo vocábulos differe n’algumas partes; (...) carece de três letras, convem a saber, nam têm F, nem L, nem R, cousa digna despanto porque assi nam têm Fé, nem Lei, nem Rei, e desta maneira vivem desordenadamente sem terem alem disto conta, nem peso, nem medido” (História, 1980:123-124).


SOBRE A MUDANÇA DO NOME: RELIGIOSIDADE
Em História da província Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil  evangelizar e explorar, em vez de opostas, eram atividades complementares naqueles tempos de Gândavo, bem sintetizadas nos versos de Camões, que cantarão “...as memórias gloriosas /Daqueles reis que foram dilatando/ A Fé, o Império, e as terras viciosas de África e de Ásia andaram devastando.” Levava-se a palavra de Deus aos confins do mundo e impunha-se o Seu nome a ferro, fogo e muito sangue. Daí que o devastar em Camões ganhe caráter positivo – para espanto dos nossos tempos de agora. Mas, é preciso compreender que se tratava de devastar “terras viciosas”, isto é, lugares que representavam verdadeira ofensa à existência de Deus. Era natural, assim, que, em reconhecimento a tanto esforço, Deus autorizasse seus servidores, a promover uma pilhagem aqui, um saque ali, uma invasão mais além, de modo a não voltar de mãos e naus vazias. Tratava-se de pequena  recompensa para tanto zelo em nome Dele.
Tal concepção só tem sua legitimidade posta em dúvida, e mais que isso, condenada, quando a ação ultrapassa o limite do “serviço de Deus”, para apresentar-se pura e simplesmente como efeito malévolo da cobiça humana, que aproxima o homem das forças do mal. Quando tal mudança é percebida, o castigo de Deus é iminente, embora ele quase nunca seja entendido assim, pois mesmo na guerra santa há sempre excessos, desculpáveis na proporção do fervor empregado.
É nessa direção que se deve entender a substituição da palavra Brasil por Santa Cruz nas duas versões da História. Nessa época, brasil remete, por sua cor, a um –  passe o paradoxo – verdadeiro El Dorado, objeto de disputa feroz entre portugueses e  invasores, particularmente os franceses, devido ao seu alto valor comercial: o pau-brasil.
Gândavo propõe, com a mudança do nome, uma volta às origens, posto a cobiça ter encoberto o projeto inicial sinalizado no nome Santa Cruz. O autor nada tinha contra a exploração comercial da madeira, somente que tal prática não pode nunca transformar-se em nome da terra, pois, nessa troca de madeira, substituir-se-ia a sagrada – a madeira da cruz! – pela mundana, na qual se manifesta a presença viva (e colorida) do diabo. É  pois uma batalha no nível do signo que Gândavo empreende.
Por onde não parece razoável que lhe neguemos esse nome [Santa Cruz], nem que nos esqueçamos dele tão indevidamente por outro que lhe deu o vulgo depois que o pau da tinta começou a vir para estes reinos. Ao qual chamaram brasil por ser vermelho e ter semelhança de brasa, e por isso ficou a terra com esse nome de Brasil. Mas para que nisto magoemos ao demônio, que tanto trabalhou e trabalha para extinguir a memória da santa cruz (mediante a qual fomos redimidos e livrados do poder de sua tirania) e desterrá-la dos corações dos homens, restituamos-lhe seu nome e chamemos-lhe, como em princípio, província de Santa Cruz (que assim o aconselha também aquele ilustre e famoso escritor João de Barros na sua primeira Década, tratando desse descobrimento) (HSC, 46).

Presença viva no cotidiano, Deus tem suas marcas deixadas por onde andam Seus seguidores. Abandonar tal prática nesse caso é entregar-se deliberadamente às manhas do demônio, que anda rondando sempre, tentando até mesmo o mais fiel dos fiéis.

A obra: uma síntese
Na sua obra “História da Província de Santa Cruz”, Gândavo relata como ocorreu o descobrimento do Brasil: Companhias de navios saíram de Lisboa em 9 de março de 1500 com destino à Índia, por já terem um genérico mapa que os conduzissem, se deparam num meio de um temporal nas ilhas do Cabo Verde que por consequência separou os navios da companhia e alteraram sua rota. Ao passar de um mês navegando no sentido do vento, avistaram então a terra prometida e se depararam em sua costa, foram navegando por sua extensão até encontrarem um porto limpo e seguro, ao qual nomearam Porto Seguro. Ao passar a noite, Pedro Álvares saiu com um grande contingente de gente onde já tiveram o primeiro contato com tais nativos que deram o nome de índios (...) e entre eles rezaram uma missa. Aqueles nativos que ali se faziam presente se aglomeraram e ouviam tudo muito quietos.
Logo depois desse momento, os portugueses interpretaram que, devido aos índios de porem de joelhos e baterem no peito, eles tendiam à fé e assim estavam dispostos a receberem a doutrina cristã. Pedro Álvares, então, mandou logo navios com tal notícia para o rei Dom Manuel o qual ficou muito feliz e logo começou a mandar navios e vice-versa e assim a terra começou a pouco sendo conhecida e sucessivamente habitada.
Por ali se instalou por vários dias Pedro Álvares de Cabral que não poderia partir desta terra sem deixar um nome. Assim, alçou na maior árvore da redondeza uma cruz que foi comemorada com grande solenidade por alguns fiéis e sacerdotes, dando então, o nome de Santa Cruz, mas logo tal nome foi esquecido, depois que o pau-da-tinta começou a ser conhecido e cobiçado e também chamado de Brasil por ser vermelho e ter semelhança de brasa, daí aquelas terras antes Santa Cruz, passaram a ser conhecidas como Brasil. No entanto, prevaleceu o intuito católico: a terra voltou a ser chamada província de Santa Cruz. Como um pau que somente servia para tingir panos poderia ser o nome desta província?
Deste ponto Gândavo começa a caracterizar o Brasil e propagandeá-lo com fama de ser ótimo para os portugueses morarem. Fala da estrutura das casas, da abundância de frutos e promessa de uma vida melhor na terra descoberta. Descrevia o Brasil com condições de vida provincial bem melhor do que as de Portugal.
Gândavo também relata o motivo por qual estavam matando os índios: vários portugueses começaram a se instalar pela costa terrestre e lá também existiam vários índios os quais se levantaram contra os portugueses e faziam muitas traições. Os nativos tentavam se esquivar do desejo português de escravizar a mão-de-obra indígena. Os índios que sobreviviam migravam para o sertão.

Gândavo mencionou e caracterizou as terras dos primeiros capitães que conquistaram esta província:
1 – Capitania Tamaracá: Seu conquistador foi Pero Lopes de Sousa. É uma ilha onde ao norte encontramos terras viçosas e é lá onde o próprio mora.
2 – Capitania Pernambuco: seu conquistador foi Duarte Coelho,sua residência encontra-se a 4 léguas da ilha de Tamaracá, chama-se Olinda que é uma das mais nobres vilas da província. Uma característica muito importante é o fato de lá haverem muito escravos, com isso vários fazendeiros utilizaram-no para trabalho escravo.
3 – Capitania Bahia de Todos os Santos: Onde encontramos o governador e bispo, e ouvidor-geral de toda costa, quem conquistou foi Francisco Pereira Coutinho. Eliminou por toda a extensão vida indígena, pois os tinham como seus inimigos. Seu primeiro governador-geral foi Tomé de Souza. Existia uma cidade nobre e muito bonita onde morava o governador: Salvador.
4 – Capitania Ilhéus: Seu conquistador foi Jorge de Figueredo Correia, Estabeleceu uma vila a 30 léguas da Bahia de todos os santos muito formosa e de muitos vizinhos.
5 – Capitania Porto Seguro: Seu conquistador foi Pero do Campo Tourinho, famosa por ter um porto limpo e seguro.
6 – Capitania Espírito Santo: Seu conquistador foi Vasco Fernandes Coutinho. Sua população é situada em uma ilha pequena, dela nasce um rio com infinidade de peixes com extensão até o sertão. Portadora de terras férteis.
7 – Capitania Rio de Janeiro: Seu conquistador foi Mem de Sá, expulsaram numa batalha os índios que ali encontravam-se. Ele foi o governador geral dessas partes. Considerada segura e propicia para ser capital da província.
8 – Capitania de São Vicente: Seu conquistador foi Martim Afonso de Sousa, essa é uma terra bastante povoada.


O quarto capítulo da obra mostra a divisão do espaço brasileiro em dois governos gerais, a fim de facilitar o gerenciamento, e a convivência e ambientação dos portugueses que aqui habitavam, o que propiciou o desenvolvimento econômico.
Veja a nota do editor em uma das publicações que traz trechos da produção de Pero de Magalhâes Gândavo:
 “Em 1570, a Coroa Portuguesa resolveu dividir o Brasil em dois governos-gerais: um indo de Pernambuco a Porto Seguro, com capital em Salvador; e outro de ilhéus até o sul, com capital no Rio de Janeiro. A divisão ocorreu, segundo a Coroa, pois ‘sendo as terras da costa do Brasil tão grandes e distantes umas das outras e haver já agora nelas muitas povoações e esperanças de se fazer muito mais pelo tempo em diante, não podiam ser tão inteiramente governadas como cumpria, por um só governador, como até aqui nelas houve’” (Cronista do descobrimento; editora ática - Pero de Magalhães Gândavo).

Não podemos jamais esquecer que o índio foi importante para tamanho crescimento da província, uma vez que desempenhava, em primeiro momento, trabalho escravo. No entanto, o negro africano começava a ser trazido para o Brasil para que, pouco a pouco, substituísse a mão-de-obra dos nativos. Estes resistiam ao processo de escravização e contavam com o apoio da Igreja que também trabalhava para impedir a escravidão do índio, mas aplaudia a subserviência do negro.




PAES - "Negrinha", Monteiro Lobato

Sobre o autor:
José Bento de MONTEIRO LOBATO – Romancista, contista e jornalista brasileiro, nasceu em 18 de abril de 1882, em Taubaté, São Paulo, e faleceu em 4 de julho de 1948, no mesmo Estado.
Bacharel em Direito, exerceu o cargo de Promotor Público, em São Paulo.
Monteiro Lobato é um dos escritores brasileiros mais lidos e populares. Suas obras têm sido traduzidas para quase todas as línguas e continua inspirando sentimentos nacionalistas e, principalmente, a defesa do petróleo e minérios radioativos. Foi o criador da literatura infantil no país e a sua produção, nesse gênero, é vultosa e importante. Tornou-se autor de uma extensa produção na área da literatura infantil, que inclui clássicos do gênero, como O Marquês de Rabicó (1922), Reinações de Narizinho (1931), Memórias de Emília (1936), Histórias de Tia Nastácia (1937) e O Sítio do Pica-pau Amarelo (1939). Sua obra voltada para os adultos inclui diversas histórias escritas em estilo leve e gracioso e são povoadas por tipos humanos interessantes.
Sua característica principal são o regionalismo e o conteúdo crítico. Aliando a crítica de costumes à criação de personagens como o caboclo Jeca-tatu, o escritor descreve a decadência econômica e social do vale do Paraíba paulista do início do século. O Sítio do Pica-pau Amarelo foi transformado na década de 1970 em uma série infantil de TV, de muito sucesso até hoje.

Contexto histórico e literário: Pré-Modernismo
O início do século XX representou para a nação brasileira uma fase de enormes transformações, inclusive no terreno artístico. O período conhecido como Belle époque influenciou a recém-instaurada República a implantar no cenário já controverso (pós-escravidão e seus contrastes) um processo de “europeização”, na tentativa de embelezar o país, especialmente São Paulo e Rio de Janeiro. Tal processo trouxe a retirada das classes mais pobres para regiões periféricas das cidades, o que causou, obviamente, muita revolta popular.
Além das mudanças sociais, a visão Realista-Naturalista permanece, mas a linguagem afrouxa os laços parnasianos, aderindo a um falar mais coloquial, próximo à fala cotidiana. As vanguardas europeias começavam a ganhar público entre os artistas brasileiros. Essa miscelânea de fatores acontecendo em um breve espaço de tempo é que conhecemos como Pré-Modernismo, fase intermediária até a implantação das ideias modernistas com a Semana de Arte Moderna de 1922.
            Os escritores desse período procuravam apresentar o Brasil e seus contrastes, especialmente os regionais. No caso do autor de “Negrinha”, Monteiro Lobato, retratou os costumes interioranos do caboclo do Vale do Paraíba, sua miséria, hábitos e “causos”.
Uma breve polêmica quando da exposição de Anitta Malfatti, em 1917, deixou transparecer os ideais tradicionalistas de um Lobato que não aceitava a arte brasileira como imitadora de modelos estrangeiros. O autor cria que o Brasil basta a si mesmo, com seu povo, sua gente, seus costumes.

Análise do conto NEGRINHA: metonímia da vida escrava

Publicado em 1920, o conto demonstra como a escravidão, extinta na lei em 1888, ainda imprimia hábitos e preconceitos na sociedade do período. O início do século apresentava-se como uma etapa de grandes inovações e modernização no território brasileiro, no entanto, o preconceito racial permanecia.
Tipo de narrador: 3ª pessoa, onisciente. Uso dos discursos direto, indireto e indireto livre. A voz do narrador prevalece na obra. Apesar da 3ª pessoa, esse narrador mostra-se compadecido para com os sofrimentos da pobre menininha protagonista da narrativa.
Tendo a escravidão como tema, o conto nos apresenta uma mulatinha escura, de sete anos, órfã desde os quatro. Nascera na senzala e vivia pelos cantos da cozinha. Residia sob os “cuidados” de D. Inácia, uma senhora rica e gorda, que não possuía apego por crianças nem tinha filhos. Na verdade, a pobre menina vivia pela casa como um animal sem dono e incômodo.
Usando o tempo cronológico na maior parte das vezes, o narrador, de modo irônico e objetivo, demonstra como, em um espaço universal (não é citado o nome do local onde se passam os fatos) muitas “negrinhas”, órfãos da escravidão, permanecem sofrendo os vestígios do passado escravagista.
Negrinha é maltratada por D. Inácia. A ex-senhora de escravos, no entanto, posa de mulher caridosa, recebendo do padre da região os elogios pelas ações de amor para com o próximo.

Negrinha X D. Inácia:
Negrinha: não possuía nome, era amedrontada, subserviente, pobre, marginalizada, condicionada ao sofrimento herdado dos antepassados escravizados. Negrinha é uma metonímia daqueles que, no processo pós-escravidão, ainda sentem os resultados da condição do negro, ser desprezado e judiado. A menininha era tratada como bicho, recebia apelidos depreciativos e servia como forma de sua patroa descarregar suas tensões por meio dos diversos castigos aplicados à pequena.
D. Inácia: representa os que detêm o poder, é rica, preconceituosa, impaciente, agressiva. Diante das instituições religiosas apresenta-se como mulher virtuosa, que se compadece dos pobres e injustiçados; na vida íntima é cruel, má. Nunca pudera ter filhos; parece com tal informação do narrador que D. Inácia encarna o masculino rude e amargo, sem a doçura e feminilidade típico do sexo que dá a luz.

Fatos marcantes:
A alegria de Negrinha ao ver o cuco: o cuco do relógio, única diversão da menininha, é uma representatividade da liberdade, afinal é um animal que voa, desprendido dos terrores dos pés no chão, da vida real. Negrinha não possuía tal liberdade, nem podia nem conhecia sonhos... Além disso, o cuco marca a passagem do tempo de tristezas da menina, pois ela só se diverte quando o objeto badala as horas.
O castigo do ovo: nessa passagem, mesmo a menina tendo razão, afinal, a criada nova roubara “um pedacinho de carne que se vinha guardando para o fim”, Negrinha é castigada pela patroa: a velha senhora coloca na boca da menina um ovo quente, obrigando-a a suportar a queimadura.
§  O acontecimento retrata o silenciamento de uma classe que não tem direito de se manifestar, de reagir.
A vinda das sobrinhas loiras: a presença de uma infância tolerável e não sujeita a castigos surpreende
Negrinha. D. Inácia trata as meninas com carinho e meiguice, o que sugere que o horror da senhora não era para com as crianças de modo geral, mas sim com os negros, os quais, criança ou não, ela não suportava.
§  O acontecimento retrata a superioridade da raça branca, a aceitação do branco em detrimento do negro.
§  As meninas aparecem como anjos que amenizam os sofrimentos de Negrinha.
 A “descoberta” da boneca: às meninas loiras era dado o direito de brincar e seu objeto de deleite, a boneca, fora motivo de deslumbramento para a pobre menina negra.
§  EPIFANIA: Ao segurar a boneca, brinquedo feminino que Negrinha não conhecia, a menininha se descobre como criança, como ser humano, com sentimentos iguais aos das outras crianças.
A morte de Negrinha: a passagem das meninas loiras pela fazenda, ao dar a Negrinha a consciência de quem ela era, impede a menina de continuar vivendo em servidão e negação de identidade. A tristeza vai consumindo a pequena até que a morte lhe consome.
§  A morte surge como libertação da vida de opressão; ali, naquela casa, não havia lugar para a pobre menina.

Em toda a narrativa, o leitor não conhece a voz nem os pensamentos de Negrinha. Já D. Inácia se faz vencer através do uso da palavra, seja ao dialogar com os padres ou mesmo ao xingar a pobre órfã.
O passado histórico terrível e destruidor e a crueldade com que os negros eram tratados são encarnados na personagem Negrinha.

À protagonista de Monteiro Lobato, após descobrir-se como sujeito e não objeto, resta-lhe apenas a morte, tal como era dada a tantos negros desde o período das levas dos navios negreiros.

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