28 de jun de 2016

ANÁLISE LITERÁRIA “O SANTO E A PORCA”, Ariano Suassuna

Sobre o autor:

Em 16 de junho de 1927, filho de Cássia e João Suassuna, nascia Ariano Vilar Suassuna, em Nossa Senhora das Neves, atual João Pessoa, capital da Paraíba. No ano seguinte, seu pai deixa o governo e a família passa a morar no sertão, na fazenda Acauhan, experiência que serviria para, anos depois, iniciar o jovem no mundo interiorano que serviria de cenário para toda a sua obra. Depois do assassinato de seu pai por motivos políticos no Rio de Janeiro, sua família mudou-se para Taperoá, onde morou de 1933 a 1937. Nessa cidade, Ariano fez seus primeiros estudos e assistiu pela primeira vez a uma peça de mamulengos e a um desafio de viola, cujo caráter de “improvisação” seria  uma das marcas registradas também da sua produção teatral, desse modo, mais aspectos da cultura nordestina seriam incutidos em sua formação. Em 1942, passou a viver em Recife, onde terminou em 1945, os estudos secundários no Ginásio Pernambucano e no Colégio Osvaldo Cruz. No ano seguinte, iniciou a faculdade de Direito onde conheceu Hermílio Borba Filho e junto com ele fundou o Teatro do Estudante de Pernambuco. Uma mulher vestida de sol, sua primeira peça, escrita em 1947, no ano seguinte a peça Cantam as Harpas de Sião ou Desertor da Princesa, foi montada pelo Teatro do Estudante de Pernambuco. Em 1950, forma-se na Faculdade de Direito, mesmo ano em que recebe o Prêmio Martins Pena pelo Auto de João da Cruz. Para se curar de uma doença pulmonar, viu-se obrigado a se mudar novamente para Taperoá, onde escreve e monta a peça Torturas de um coração. Em 1956, volta para Recife se dedica à advocacia e continua a escrever peças: O castigo da soberba (1953), O rico avarento (1954) e o Auto da Compadecida (1955). Em 1957, abandona a advocacia e se torna professor de Estética na Universidade Federal de Pernambuco, escreve em 1957 a peça O Casamento suspeitoso e O santo e a porca. Suas comédias são de gosto popular, fortemente influenciadas pelo teatro grego, o teatro ibérico do século XVI e pela Comédia Del’Arte, mesclando influências da cultura nordestina, como as parlendas, o cordel e o repentismo.
                                                                                             
v  Na elaboração de O Santo e a Porca, Ariano Suassuna foi diretamente influenciado pela peça
Aulularia, de Plauto, autor romano com influências gregas. Como Suassuna mesmo chegou a afirmar várias vezes, essa não é uma peça original, afinal, muito dela se origina em variações (relidas num contexto nordestino) da trama de Plauto. Em Aulularia, o protagonista é “Euclião” (daí a escolha do nome Eurico, ou Euricão), que encontra uma panela de ouro deixada por seu avô. ‘Esse achado’ aliado ao casamento de sua filha com um velho rico, origina o mote central de um texto ágil cheio de encontros, desencontros e ambiguidades.
                Suassuna adaptou o texto de Plauto, mas desenvolveu uma releitura dentro do contexto nordestino da literatura de cordel e criou uma trama mais complicada.
                Essa intertextualidade com a peça de Plauto não se resume apenas a uma releitura adaptativa dos personagens. O próprio cenário da obra remete diretamente à peça do dramaturgo latino, exemplos:

Casa de Euricão/ Templo de Santo Antônio = Templo de Bona Fides
Festa de São João = Festa de Ceres
Cemitério = Bosque de Silvano
Hotel de Dadá= Mercado (Fórum).

v  TEMATICA
Tema central: a avareza humana
Tema filosófico: a relação do mundo material com o espiritual
Em literatura: lembra os conflitos barrocos de ordem religiosa: Euricão Árabe terá de escolher entre a loucura e o discernimento, a ilusão e verdade, o permanente e o efêmero. Oscilação entre o santo e o profano: representação do movimento entre espiritualidade e materialidade natural do ser humano. Pode-se ver nessa peça um claro caráter moralizante, típico dos textos católicos. O maniqueísmo é marcado pela criação de extremos e representado quando Euricão sente-se obrigado a escolher entre o material (dinheiro) e o espiritual (Santo Antônio).

v  ESPAÇO
                Na peça O santo e a porca, a ação se passa na sala da casa de Euricão, o que pode ser comprovado nas indicações cênicas. Estas indicações devem ser confrontadas com o texto interpretado pelos atores, pois a linguagem está relacionada com a demarcação espacial e ambas se unem pela ação dramática. No texto, a casa do protagonista é vista por ele próprio como seu território, protegido pelo santo de devoção e como sua fortaleza, onde ele guarda seus dois tesouros – a filha e a porca

v  TEMPO
                Em O santo e a porca, o tempo intervém na ação de várias formas, estabelecendo uma cronologia que reconstitui o desenrolar dos acontecimentos, fornecendo um tempo próprio para cada personagem, através de marcas temporais que aparecem no texto ou tomando uma dimensão metafórica.
                O próprio diálogo das personagens fornece indicações que inscrevem a ação dentro de um tempo real e juntamente com a divisão em atos, cenas e quadros compõem as principais marcações temporais no momento da representação.
               O tempo da ficção obedece à concepção clássica das unidades e da verossimilhança. A ação se passa num período de 24 horas dividido entre os três atos da peça. O tempo da representação é caracterizado pela continuidade.
                Apesar da aparente simplicidade na escrita é preciso prestar atenção nas rubricas (indicações entre parênteses). Elas acabam fazendo o papel do narrador e orientam a cena. Na peça de Ariano Suassuna, o tempo da representação é marcado da seguinte forma:
Primeiro ato: Apresentação do problema e das personagens – Tempo da espera por Eudoro (ações se passam no período da manhã).
Segundo ato: Complicação da situação, ponto de tensão – Tempo da espera pela entrevista e reviravoltas de Eurico tentando proteger sua porca (as ações se passam no período da tarde).
Terceiro ato: Tempo das entrevistas e das revelações – desenlace da trama, consumações amorosas e descobertas da falta de valor da porca (as ações se passam no período da noite).
                Estas marcações ficam muito claras nas falas das personagens. Conclui-se então que na representação da peça, a ‘entrevista’ é o marcador temporal que a divide em dois grandes momentos, antes dela, percebe-se o clima de tensão, de espera, da expectativa que culminará na reconciliação dos casais. A seguir, situa-se os pedidos casamento, a descoberta do segredo de Euricão (a porca) e sua decepção.

v  PERSONAGENS
                As duas forças principais que regem um texto dramático são as personagens e o enredo. Nesta obra eles são quase indissociáveis, o autor constrói aquilo que ele próprio denomina personagens-tipo: cada um possui características e personalidades próprias e servem para retratar as mais variadas facetas do comportamento humano.

Caroba: A escolha do nome provém da associação com a árvore, segundo o autor, grande e forte, relacionado com sua desenvoltura para encontrar modos de resolver as situações e tentar garantir seu próprio bem estar. Ela é empregada de Euricão e quem desenvolve toda rede de intrigas que envolve os casamentos, é esperta, articula as ações do texto.
Pinhão: Seu nome significa “fruto rústico”. Empregado de Eudoro, noivo de Caroba. Representa a busca da liberdade. Usa muitos ditados populares, representando a voz do povo dentro da peça.
Euricão: Engole Cobra, Eurico Árabe, é o protagonista da peça, pai de Margarida e irmão de Benona, personagem avarento e ao mesmo tempo religioso. Se questiona muitas vezes na peça o que seria mais importante para ele, o Santo Antônio ou seu dinheiro.
Margarida: flor bucólica, filha de Euricão e noiva (às escondidas) de Dodó. Personagem que desencadeia dois pólos de interesse: material e sentimental.
Dodó: redução do nome Eudoro, seu pai, indicando o caráter de submissão do filho. Noivo de Margarida, muito

apaixonado faz qualquer coisa para ficar com a amada, até mesmo fingir ser aleijado.
Benona: Alusão à personagem de Plauto (Eunomia - em grego, ordem bem regulada), é irmã de Euricão, ex-noiva de Eudoro, representa os pudores e recatos, apaixonada por seu antigo noivo.
Eudoro: Eudoro, nome composto por eu (do grego bem, bom) e dôron (o generoso). Pai de Dodó, ex-noivo de Benona e pretendente de Margarida. Representa a burguesia, quer se casar para evitar a solidão, julga que seu dinheiro é suficiente para garantir-lhe um bom casamento.


v  PRINCIPAIS CONFLITOS EM O SANTO E A PORCA:
                Na peça de Suassuna temos os conflitos ligados às atitudes de Euricão, o que pode ser identificado em algumas passagens da obra:
                a) avareza de Euricão. “Dodó – Isso é um louco! Você não imagina até onde vai a avareza dele. Desde que estou aqui só se comeu à noite uma vez. E ele exige que a gente pague a refeição, porque acha que mais de uma por dia é luxo”.
                b) seu apego demasiado à porca e sua dedicação a ela como substituta da esposa que o abandonou e seu medo de perdê-la. Euricão – “Ladrões, ladrões! Será que me roubaram? É preciso ver, é preciso vigiar! Vivem de olho no meu dinheiro, Santo Antonio! Dinheiro conseguido duramente, dinheiro que juntei com os maiores sacrifícios. Eurico Árabe, Eurico Engole-Cobra! Pois sim! Mas é rico e os que vivem zombando dele não têm a garantia de sua velhice. Ah, está aqui, os ladrões ainda não conseguem furtar nada. Ah! Minha porquinha querida, que seria de mim sem você? Chega dá uma vontade da gente se mijar! Fique áí até outra oportunidade. Se eu pudesse comeria você inteirinha” (...).
                c) sua devoção a Santo Antônio como protetor de seu lar e da sua porca: Euricão – “Agora sim, você, Santo Antônio, deve se contentar agora com minha pobreza e minha devoção. Eu não o esqueci. Não deixe que esses urubus descubram meu dinheiro! Faça isso, meu santo e a banda de jerimum que eu ia dar a Caroba será sua. Menos as sementes, viu? As sementes eu quero para fazer xarope e vender no armazém. Ganha-se pouco, mas sempre é alguma coisa para enfrentar a crise e a carestia!”
                d) a colocação da porca no socavão e a retirada da porca do socavão para a sala e para a proteção de Santo Antônio: Euricão – “Aí, gritaram “Pega ladrão”, quem foi? Onde está? Pega, pega! Santo Antônio, que diabo de proteção é essa? Ouvi gritar “Pega o ladrão”. Ai, a porca, ai meu sangue, ai minha vida, ai minha porquinha do coração! Levaram, roubaram! Ai, não, está lá, graças a Deus! Que terá havido, minha Nossa Senhora? Terão desconfiado porque tirei a porca do lugar? Deve ter sido isso, desconfiaram e começaram a rondar para furtá-la” É melhor deixá-la aqui mesmo, à vista de todos, assim ninguém lhe dará importância! Ou não? Que é que eu faço, Santo Antônio? Deixo a porca lá ou a trago para cá, sob sua proteção? Desde que ela saiu daqui me começaram as ameaças! É melhor trazê-la com a capa, porque alguém pode aparecer. Santo Antônio faça com que não apareça ninguém! Não deixe ninguém entrar aqui. Vou buscar minha porquinha, mas não quero ninguém aqui”.
                e) a retirada da porca de casa, dos cuidados do santo para o cemitério, “onde tudo se perde e não se acha nada” e a colocação da porca no socavão ao lado do túmulo da esposa: Euricão – “ Ah! Agora estou só,  Estará escondido? O quarto está vazio. E aqui? Ninguém. Agora, nós, Santo Antônio! Isso é coisa que se faça? Pensei que podia confiar em sua proteção, mas ela me traiu! Você, que dizem ser o santo mais achador! É isso, Santo Antônio é achador e está ajudando achar minha porca! Eu devia ter me pegado é com um santo perdedor! Agora não deixo mais meu dinheiro aqui de jeito nenhum. O cemitério da igreja! É aqui perto e é lugar seguro. Entre o túmulo de minha mulher e o muro, há um socavão: é lá que guardarei meu tesouro. Prefiro a companhia dos mortos à dos vivos, ali minha porca ficará em segurança. Com medo dos mortos, os vivos não irão lá e os mortos, ah, os mortos, não desejam mais nada, não têm nenhum sonho a realizar, nenhuma desgraça a remediar. Ao cemitério! Escondo a porta no socavão e à noite, quando todos estiverem dormindo, cavo a terra e hei de enterrá-la o mais fundo que puder. E você, Santo Antônio, fique-se ai com sua proteção e seu poder de encontrar. Lá, meu ouro, meu sangue, estará em segurança: o mundo dos mortos é mais tranqüilo e, digam o que disserem os idiotas, lá é o lugar em que se perde tudo e não se acha nada”!
                f) o roubo da porca (primeira perda): Euricão – ‘ Ai, ai! Estou perdido, estou morto, fui assassinado! Para onde correr? Para onde não correr? Pega, pega! Mas pegar a quem? Não vejo nada, estou cego. Não sei mais onde vou, não sei mais onde estou, não sei mais quem sou! Ah, dia infeliz, dia funesto, dia desgraçado! Que fazer agora da vida, tendo perdido aquilo que eu guardava com tanto cuidado? Roubei-me a mim próprio, furtei a minha alma! Agora outros gozam com ela, para meu desgosto e prejuízo? Não, é demais pra mim”! (cai desfalecido, chorando).
                g) a devolução da porca: Pinhão – “um momento, me solte! Vá pra lá! Eu confesso que furtei essa porca, mas o senhor não ganha nada mandando me entregar à polícia. Eu morro e não digo onde ela está! Todo mundo fala em furto, em roubo e só se lembra da porca! Está bem, eu furtei a porca! Sou católico, li o catecismo e sei que isso não se faz! (...) Pois bem, proponho um acordo a todos. Seu Eudoro não emprestou vinte contos a Seu Eurico? Eu entrego a porca por esse vinte contos’.
(...) Euricão – Ah! Santo Antônio poderoso! Até que enfim você se compadeceu de seu velhinho, de seu devoto de todos os momentos e de todas as horas! Pensei que estava obrigado a escolher entre o santo e a porca! Mas Santo Antônio não podia me exigir esse absurdo! Ai, minha porquinha, que alegria, que alegria apertá-la de novo contra o meu coração! Que alegria beija-la! Ó minha esperança, ó minha vida! Agora que a encontrei não largarei um só instante! Afastem-se, saiam de perto de mim! Agora é assim, minha porca e eu!
                h) a grande decepção (segunda e derradeira perda): Eudoro – Eurico, o dinheiro não é tudo neste momento. Você tem sua filha, tem a todos nós que agora somos sua família. Deixe de depositar toda a sua vida nesse dinheiro! Não dê tanta importância ao que não vale nada, porque...
Euricão – Por que o quê? Que é que você quer dizer? Diga, termine!
Eudoro – Será melhor dizer mesmo, Eurico?
Euricão – Dizer o quê? Diga logo, é melhor do que me esconder alguma coisa grave. Que é?
Eudoro – Esse dinheiro está todo recolhido, Eurico! Tudo o que você tem aí não vale nem um tostão.
Euricão – Nossa Senhora, Santo Antônio! Você jura pelos ossos de sua mãe como é verdade?

Eudoro – Juro.

IMPORTANTE: Além dos personagens humanos, temos dois objetos que possuem tanta importância, Santo Antônio (santo casamenteiro e protetor daqueles que perdem algo de valor), representando o sagrado e a fé e a porca, que figura como oposição, o profano, o que faz frente ao religioso, objeto de cobiça, representa a avareza de Euricão. O porco é o símbolo de impureza, de pecado, representa a avareza de Euricão, um dos 7 pecados capitais; porca: (para os egípcios) abundância, criação de vida.

v  Outro fator relevante é a presença da ambiguidade, um dos recursos utilizados pelo autor para
provocar os efeitos cômicos e desenrolar as intrigas e confusões na narrativa, uma vez que os fatos são interpretados de modo duplo por Euricão e outros personagens. 

22 de jun de 2016

E os sonhos não me deixam me perder...

Sonhar, dar asas ao impossível enquanto o possível ensaia suas rotinas. O dia a dia, a correria da vida e o cansaço dos anos embaçam os nossos olhos. É a capacidade de sonhar, de querer, de insistir e de reproduzir no mundo dos sonhos os desejos mais secretos, mais ousados, que nos dão coragem para prosseguir. 
Quem sonha não envelhece. Seja menino, homem ou mulher, somos nascidos para sonhar... 
Vencer o invencível, querer o indisponível, amar até se perder. Onde mais se não nos sonhos tais coisas são possíveis? Onde mais o salgado da vida se transforma em doce ilusão? Em que plano os quereres se nomeiam e insistem em se tornarem decisão?  
Nos sonhos, a esperança compensa as dificuldades da vida. Eles são as bússolas do coração, são projetos de vida que se vestem de otimismo, que nos ensinam que o melhor pode estar muito perto e que a descrença é má conselheira. 
A realidade não suporta o calor das dificuldades. Nela, tudo é desespero, é limitado, é sopro de fim. Persistentes que são,  os sonhos resistem às mais altas temperaturas dos medos, tiram a poeira do cansaço, seguram-nos em seus braços e renovam o olhar. Quando o mundo ameaça cair ao nosso redor, o surreal, o onírico, areja a nossa emoção e produz um agradável romance com a vida. Por isso, ao sonhar o realizar não é o fim. Um sonhador não conclui devaneios. Ele os troca por outros e outros ... e faz do sem-limite seu campo de flores. Como um Ícaro prudente, suas asas não são feitas de cera que se queima em contato com as mais altas altitudes. O material que eleva quem sonha é insólito, é eterno e reverbera na eternidade. É ele que dá perfume à flor, que anima o caído e que faz do futuro uma estrada que, ainda que tortuosa, tem seu destino na vastidão do mais belo querer.

5 de jun de 2016

O Burgo, PAES - Unimontes 1ª Etapa 2016

O Burgo, Gregório de Matos Guerra

Para baixar ou ler aqui:

O burgo

CABARET MINEIRO, indicação PAES Unimontes

O seminarista, Bernardo Guimarães


SOBRE O AUTOR
Bernardo Joaquim da Silva Guimarães nasceu em 1825, em Ouro Preto, interior de Minas Gerais, e aí faleceu em 1884. De 1847 a 1852, cursou a Faculdade de Direito de São Paulo, deixando fama de estudante boêmio e brincalhão. Exerceu diferentes atividades ao longo da vida: foi juiz, professor, jornalista, mas gostava mesmo de literatura. Escreveu vários livros de poesia e ficção, mas foram os romances A escrava Isaura (1875) e
O seminarista (1872) que reservaram um lugar de destaque a Bernardo Guimarães como um dos mais importantes prosadores do Romantismo brasileiro.


VISÃO GERAL DA OBRA

A contundente crítica do romance é contra o celibato religioso, contra a proibição de casamento para os padres, vista como uma violência contra a natureza humana: “Ah, celibato!... Terrível celibato!... Ninguém espera afrontar impunemente as leis da natureza! Tarde ou cedo, elas têm seu complemento indeclinável, e vingam-se cruelmente dos que pretendem subtrair-se ao seu império fatal!...”.

Passeio Noturno I, Rubem Fonseca (Com atividade de interpretação)


                Cheguei em casa carregando a pasta cheia de papéis, relatórios, estudos, pesquisas, propostas, contratos. Minha mulher, jogando paciência na cama, um copo de uísque na mesa de cabeceira, disse, sem tirar os olhos das cartas, você está com um ar cansado. Os sons da casa: minha filha no quarto dela treinando impostação de voz, a música quadrifônica do quarto do meu filho. Você não vai largar essa mala?, perguntou minha mulher, tira essa roupa, bebe um uisquinho, você precisa aprender a relaxar.

O pirotécnico Zacarias, Murilo Rubião


"E se levantará pela tarde sobre ti uma luz como a do meio-dia; e quando te julgares consumido, nascerás como a estrela-d'alva." (Jó, XI, 17)


Raras são as vezes que, nas conversas de amigos meus, ou de pessoas das minhas relações, não surja esta pergunta. Teria morrido o pirotécnico Zacarias? A esse respeito as opiniões são divergentes. Uns acham que estou vivo - o morto tinha apenas alguma semelhança comigo. Outros, mais supersticiosos, acreditam que a minha morte pertence ao rol dos fatos consumados e o indivíduo a quem andam chamando Zacarias não passa de uma alma penada, envolvida por um pobre invólucro humano. Ainda há os que afirmam de maneira categórica o meu falecimento e não aceitam o cidadão existente como sendo Zacarias, o artista pirotécnico, mas alguém muito parecido com o finado. Uma coisa ninguém discute: se Zacarias morreu, o seu corpo não foi enterrado. A única pessoa que poderia dar informações certas sobre o assunto sou eu. Porém estou impedido de fazê-lo porque os meus companheiros fogem de mim, tão logo me avistam pela frente. 

O ex-mágico da Taberna Minhota

O ex-mágico da Taberna Minhota
Murilo Rubião

Inclina, Senhor, o teu ouvido, e ouve-me;
 porque eu sou desvalido e pobre.
(Salmos. LXXXV, I)


Hoje sou funcionário público e este não é o meu desconsolo maior.
Na verdade, eu não estava preparado para o sofrimento. Todo homem, ao atingir certa idade, pode perfeitamente enfrentar a avalanche do tédio e da amargura, pois desde a meninice acostumou-se às vicissitudes, através de um processo lento e gradativo de dissabores.
Tal não aconteceu comigo. Fui atirado à vida sem pais, infância ou juventude.
Um dia dei com os meus cabelos ligeiramente grisalhos, no espelho da Taberna Minhota. A descoberta não me espantou e tampouco me surpreendi ao retirar do bolso o dono do restaurante. Ele sim, perplexo, me perguntou como podia ter feito aquilo.
O que poderia responder, nessa situação, uma pessoa que não encontrava a menor explicação para sua presença no mundo? Disse-lhe que estava cansado. Nascera cansado e entediado.
Sem meditar na resposta, ou fazer outras perguntas, ofereceu-me emprego e passei daquele momento em diante a divertir a freguesia da casa com os meus passes mágicos.

Teleco, o coelhinho - conto de Murilo Rubião

No conto “Teleco, o Coelhinho”, a busca de humanidade esconde o desejo de superar a indiferença e o desprezo dos homens. A narrativa em primeira pessoa nos apresenta o ponto de vista do homem que recebe o coelhinho em sua casa. Encantado pela meiguice de Teleco, o narrador descobre que “a mania de transformar-se em outros bichos era nele simples desejo de agradar o próximo.” (RUBIÃO, 16ª ed., 1993:22).


“Três coisas me são difíceis de entender, e uma quarta eu a ignoro completamente: o caminho da águia no ar, o caminho da cobra sobre a pedra, o caminho da nau no meio do mar, e o caminho do homem na sua mocidade.” (Provérbios,XXX,18 e 19)


        - Moço, me dá um cigarro?
A voz era sumida, quase um sussurro. Permaneci na mesma posição em que me encontrava, frente ao mar, absorvido com ridículas lembranças.
O  importuno pedinte insistia:
–    Moço, oh! Moço! Moço me dá um cigarro?
Ainda com os olhos fixos na praia, resmunguei:
Vá embora, moleque, senão chamo a polícia.
–    Está bem, moço. Não se zangue. E, por favor; saia da minha frente, que eu também gosto de ver o mar.
Exasperou-me a insolência de quem assim me tratava e virei-me, disposto a escorraçá-lo com um pontapé. Fui desarmado, entretanto. Diante de mim estava um coelhinho cinzento, a me interpelar delicadamente:
– Você não dá é porque não tem, não é, moço?

30 de mai de 2016

A menina de Lá e Sorôco, sua mãe, sua filha

A menina de lá, Guimarães Rosa
Sua casa ficava para trás da Serra do Mim, quase no meio de um brejo de água limpa, lugar chamado o Temor-de-Deus. O Pai, pequeno sitiante, lidava com vacas e arroz; a Mãe, urucuiana, nunca tirava o terço da mão, mesmo quando matando galinhas ou passando descompostura em alguém. E ela, menininha, por nome Maria, Nhinhinha dita, nascera já muito para miúda, cabeçudota e com olhos enormes.
Não que parecesse olhar ou enxergar de propósito. Parava quieta, não queria bruxas de pano, brinquedo nenhum, sempre sentadinha onde se achasse, pouco se mexia. – "Ninguém entende muita coisa que ela fala..." – dizia o Pai, com certo espanto. Menos pela estranhez das palavras, pois só em raro ela perguntava, por exemplo: - "Ele xurugou?" – e, vai ver, quem e o quê, jamais se saberia. Mas, pelo esquisito do juízo ou enfeitado do sentido. Com riso imprevisto: - "Tatu não vê a lua..." – ela falasse. Ou referia estórias, absurdas, vagas, tudo muito curto: da abelha que se voou para uma nuvem; de uma porção de meninas e meninos sentados a uma mesa de doces, comprida, comprida, por tempo que nem se acabava; ou da precisão de se fazer lista das coisas todas que no dia por dia a gente vem perdendo. Só a pura vida.

Em geral, porém, Nhinhinha, com seus nem quatro anos, não incomodava ninguém, e não se fazia notada, a não ser pela perfeita calma, imobilidade e silêncios. Nem parecia gostar ou desgostar especialmente de coisa ou pessoa nenhuma. Botavam para ela a comida, ela continuava sentada, o prato de folha no colo, comia logo a carne ou o ovo, os torresmos, o do que fosse mais gostoso e atraente, e ia consumindo depois o resto, feijão, angu, ou arroz, abóbora, com artística lentidão. De vê-la tão perpétua e imperturbada, a gente se assustava de repente. – "Nhinhinha, que é que você está fazendo?" – perguntava-se. E ela respondia, alongada, sorrida, moduladamente: - "Eu... to-u... fa-a-zendo". Fazia vácuos. Seria mesmo seu tanto tolinha?
Nada a intimidava. Ouvia o Pai querendo que a Mãe coasse um café forte, e comentava, se sorrindo: - "Menino pidão... Menino pidão..." Costumava também dirigir-se à Mãe desse jeito: - "Menina grande... Menina grande..." Com isso Pai e Mãe davam de zangar-se. Em vão. Nhinhinha murmurava só: - "Deixa... Deixa..." – suasibilíssima, inábil como uma flor. 

Terceira fase do Modernismo ou Pós-modernidade

Terceira Fase Modernista ou Pós-Modernismo (1945-1960)
O regionalismo, uma das mais férteis correntes de nossa literatura, voltou à tona na terceira fase modernista. Trata-se, porém de um regionalismo de outra natureza. Primeiro, pela violenta experimentação a que o narrador submete a linguagem, não só incorporando termos regionais, como criando novas palavras e empregando uma sintaxe inusitada. Segundo, porque a personagem regional – representada pelo jagunço – ultrapassa a problemática decorrente do seu espaço físico ou social, e passa a refletir sobre questões de natureza filosófica, questões eternas do homem e independentes de tempo e lugar.

Contexto Histórico:
1945-1960: 1945- Término da Segunda Guerra Mundial; 1945 – Deposição de Getúlio Vargas; 1946 – Início do processo de redemocratização do Brasil; 1955 – Eleição de Juscelino Kubitschek; 1960 – Inauguração de Brasília.

Características literárias da terceira geração modernista brasileira
- Retrocesso em relação às conquistas de 1922.
- Volta ao passado: revalorização da rima, da métrica, do vocabulário e das referências mitológicas.
- Passadismo, academicismo

OS GRANDES CRIADORES DE 45, QUE RETOMAM E FECUNDAM AS EXPERIÊNCIAS DESENVOLVIDAS NO PAÍS

Prosa: João Guimarães Rosa e Clarice Lispector
Poesia: João Cabral de Melo Neto
Literatura: constante pesquisa de linguagem + senso de compromisso entre arte e realidade, engajamento
Síntese de ambas as gerações: experimentalismo + maturidade artística; nacionalismo + universalismo

Guimarães Rosa: narrativas mitopoéticas que resgatam a sutileza do elo entre a fala e o texto literário.
Clarice Lispector: romances e contos introspectivos que dialogam com as fronteiras do indizível
João Cabral de Melo Neto: poesia que associa compromisso social e precisão arquitetônica, substantiva. 

POESIA DE 45
Concretismo:poesia composta pela concretude das palavras, utilizadas em seu aspecto semântico, sonoro e visual. Há também a proposta de acabar com a exclusividade do verso, valorização da disposição gráfica das palavras e a valorização do espaço da página como elemento de composição do poema.
Principais representantes do Concretismo: Décio Pignatari, Augusto de Campos e Haroldo de Campos.

Neoconcretismo: distingue-se do Concretismo por atribuir ao leitor o papel de decodificador do texto. O significado não estaria pronto sem a atuação do leitor. Defendia, portanto, a arte participativa. Poema “não-objeto”: tinha um projeto de escrita, mas só se realizava quando fosse lido.
Principal autor: Ferreira Gullar: a poesia como afirmação da força da humanidade para resistir às pressões sociais, econômicas e políticas que trazem sofrimento e desamparo ao ser humano.

Tendências Literárias Contemporâneas
MARCAS DA PRODUÇÃO PÓS-MODERNA

O homem preso a seu tempo

O desenvolvimento de novas tecnologias de reprodução e difusão da arte (fotografia, rádio, cinema, televisão, vídeo, computador) fez com que a separação entre a arte considerada culta e a denominada arte popular fosse desaparecendo. Alguns dos mais conhecidos artistas deste século investiram na reprodução de autênticos símbolos da sociedade de consumo.
Um dos objetivos da arte pós-moderna é a sua comunicabilidade. Por isso, ela promove a incorporação de todas as estéticas passadas, combinando-as de modo inovador.
Da mesma forma como diferentes estéticas e estilos foram misturados pelos pós-modernos, um outro traço característico de sua produção é a intertextualidade: textos escritos no passado são relidos a partir de uma visão paródica, muitas vezes com objetivo irônico. Esse procedimento que já era utilizado pelos autores da primeira geração modernista, faz do texto uma grande colagem de outros textos.
O ser humano da sociedade pós-moderna parece cultivar uma postura niilista: ele não acredita em nada, não luta por nenhum ideal humanista, tendo abandonado as ilusões que animaram a história em momentos anteriores (a religião, o progresso, a consciência, a utopia) Seu grande “deus” é o consumo.
Vivendo em um mundo sem conceitos ou modelos sólidos para orientar sua existência, o ser humano pós-moderno é individualista: volta-se cada vez mais para si mesmo, preocupado em satisfazer seus desejos e alcançar suas metas.
A vida em uma sociedade voltada para o consumo traz marcas inequívocas. A principal delas é a tentativa incessante de fazer com que o ser humano relaxe, viva de maneira mais descontraída. Para tanto, investe-se em humor e no erotismo, como meios de tornar menos dramático o contexto social delicado em que vivemos.

Os rumos da prosa contemporânea
O conto:
textos curtos exploram a semelhança entre a literatura a e notícia. Temas como a violência, problemas psicológicos, religiosos, filosóficos e morais estão presentes nos contos por retratarem a vida urbana nos grandes centros. Autores como Rubem Fonseca, Dalton Trevisan E Luiz Vilela são exemplos de expoentes dessas temáticas.
O realismo fantástico, tematizando os limites entre o possível e o impossível, o real e o sobrenatural aparece na obra de Murilo Rubião e Moacyr Scliar. Os dramas dos relacionamentos amorosos e do sofrimento gerado pelas desilusões amorosas encontram eco na escrita de Caio Fernando Abreu, Lygia Fagundes Telles, Fernando Sabino, entre outros.
Na crônica, gênero narrativo que transita entre o conto e a notícia, tem como expoentes contemporâneos Carlos Heitor Cony, Luis Fernando Veríssimo e Martha Medeiros.
No romance, há a produção de gêneros mais populares, como a narrativa ficcional, a policial e a de ficção científica. Um dos principais autores aqui é João Ubaldo Ribeiro, o qual reflete a realidade regional, tal qual nas estéticas anteriores. A narrativa de memória tem Rubem Fonseca, autor de Agosto, como destaque. A prosa intimista é representada por Lya Luft, Nélida Piñon e Chico Buarque.
 

Passeio noturno II, Rubem Fonseca (curtametragem)

A literatura contemporânea, em muitas das suas manifestações, soará nas produções de hoje, como a tentativa de tradução das relações desconsoladas, da solidão humana e da desilusão existencial. Rubem Fonseca foi um dos primeiros escritores a trazer para a literatura o retrato brutal da violência que abala a sociedade brasileira. O mundo dos ricos sem escrúpulos, dos assassinos endinheirados, assim como o dos excluídos, dos marginais, foi incorporado aos contos e romances do autor, que traduziu numa linguagem coloquial e contundente a voz dos que, sob as condições de injustiça social ou sob pressões de uma vida sem sentido, se desumanizaram.

Passeio noturno I
               
            Eu ia para casa quando um carro encostou no meu, buzinando insistentemente. Uma mulher dirigia, abaixei os vidros do carro para entender o que ela dizia. Uma lufada de ar quente entrou com o som da voz dela: Não está mais conhecendo os outros? Eu nunca tinha visto aquela mulher. Sorri polidamente. Outros carros buzinaram atrás dos nossos. A avenida Atlântica, às sete horas da noite, é muito movimentada. A mulher, movendo-se no banco do seu carro, colocou o braço direito para fora e disse, olha um presentinho para você. Estiquei meu braço e ela colocou um papel na minha mão. Depois arrancou com o carro, dando uma gargalhada. Guardei o papel no bolso.

Papéis avulsos, Machado de Assis

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24 de abr de 2016

FICHA DE AUTOAVALIAÇÃO DA REDAÇÃO


1- Na introdução, você expõe o assunto da proposta e apresenta uma ideia (ou mais - duas é um bom número) relacionada a ele e que será discutida ao longo do texto?
2- No desenvolvimento do texto, você seleciona (no mínimo) dois bons argumentos e os explica de modo claro e convincente, sendo que para cada argumento você separa um parágrafo, para tornar o pensamento organizado?
3- Você apresenta conceitos, referências históricas, filosóficas, literárias ou dados estatísticos para ajudar a dar força aos seus argumentos?
4- Ao final da escrita do desenvolvimento você consegue apresentar uma ideia clara e coerente, que não apresente dificuldades para seu leitor-universal?
5- As partes do texto estão bem articuladas, bem interligadas?
6- A proposta de intervenção demonstra que para resolver/minimizar o problema são necessárias ações governamentais, de grupos da sociedade (família, ong’s, igrejas...) e individuais?
7- As ações propostas são objetivas e aplicáveis?
8- Como é o vocabulário da sua produção?
(    ) Há muitas repetições de termos ao longo do texto. Há também erros no emprego de algumas palavras.
(    ) Não há muitas repetições, mas o repertório linguístico é pouco amplo para um aluno nesta etapa de formação.
(     ) O vocabulário é simples, porém adequado para a discussão feita.
(     ) O vocabulário é rico e sofisticado, sem ser pedante e artificial.
9- A estética do texto está adequada quanto à:
(   ) paragrafação  (   ) ausência de rasuras  (   ) legibilidade e tamanho da letra.

10- Você ofereceu seu texto para que outra pessoa o leia, a fim de atestar a clareza da produção como um todo?

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