4 de ago de 2016

Filme "O pagador de promessas"

Análise Contos de Machado de Assis

I- AUTOR

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro em 21 de junho de 1839 e faleceu na mesma cidade em 29 de setembro de 1908. Filho de um mulato carioca e de uma imigrante açoriana, Machado de Assis era um mestiço de origem humilde. Frequentou apenas a escola primária, pois precisou trabalhar desde a infância, e mesmo sem ter acesso a cursos regulares aprendeu sozinho francês, inglês e alemão.
Estreou na literatura em 1855, aos 15 anos de idade, com a publicação do poema Ela na revista Marmota Fluminense. Trabalhou como cronista, contista, poeta e crítico literário. Com esse currículo, foi reconhecido como intelectual. Assumiu vários cargos públicos ao longo de sua vida, o que lhe permitiu se entregar à vida de escritor.
Sua extensa e variada obra constitui-se de romances, peças teatrais, contos, poemas, sonetos e crônicas. A obra ficcional do escritor tendia para o Romantismo em sua primeira fase, mas num segundo momento voltou-se para o Realismo, tendo a obra Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado, marcado o início desta fase no Brasil.
Como jornalista, utilizava os periódicos para publicar suas crônicas, nas quais demonstrava sua visão social, comentando e criticando os costumes da época, e, ainda, prevendo as mudanças tecnológicas que aconteceriam no século XX.
Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras (ABL) e eleito presidente da instituição, cargo que ocupou até a morte. Devido à importância do escritor, a ABL também é chamada de Casa de Machado de Assis.

Contos Escolhidos é uma coletânea composta de obras-primas de Machado de Assis. Em seus contos verificam-se constantemente os conjuntos de temáticas: ironia e humor, tragédia e comicidade, a loucura, o desejo pela perfeição não atingida, a dúvida, críticas às vaidades humanas entre outros. Por um lado, tem-se o lado psicológico das personagens, o que se passa em sua alma, por outra linha temos constantes diálogos que nos dão à sensação de estar escutando a fala das personagens, vendo as cenas e a observação de seu mundo exterior.

O pano de fundo da sua compacta obra é a Corte, a cidade do Rio de Janeiro de meados do século XIX, descrita sem ênfase ou afetação, com destaque e objetividade.
Muitos dos seus diálogos e monólogos têm a feição da oralidade, conforme a maneira dramática de contar.

Análise psicológica do comportamento humano:
Segundo a natureza dos assuntos, os contos dividem-se em duas categorias:
- os de análise psicológica em que predomina a dialética homem-mulher, 
- e os de observação da vida exterior.
Repare-se como em todos, não só nos apólogos, sobressai o filósofo e o moralista. Entre os recursos psicológicos machadianos, um dos mais constantes é a surpresa, surpresa do desfecho paradigmaticamente ligada a outra dominante, a das situações absurdas, paradoxais. Ao humor sorridente dos contos do primeiro Machado segue o sarcasmo feroz e a descrença no ser humano e na sociedade em que vive.
Para apresentar seus personagens o autor coloca-se na perspectiva de quem visa à possibilidade de desvendar o enigma do comportamento humano, mais propenso aos vícios do que às virtudes.

Em "Capítulo dos Chapéus", os trechos que fixam as pequenas discórdias entre marido e mulher valem-se da técnica que permite ao escritor prender a atenção do leitor para surpreendê-lo, com o humor e o sorriso aristocraticamente irônicos, frente às misteriosas aventuras humanas.

A face artística de Machado de Assis, apesar de estar livre de alusões autobiográficas, tem a ver com a sua natureza psíquica. O temperamento recolhido e discreto consente-lhe de dar forma às sensações da dor e da alegria, da paixão e da inanidade dos sentimentos sem recorrer aos acentos da sátira violenta ou da polêmica. A própria decepção amorosa não é expressa com tons atormentados, angustiantes ou sombrios, Machado aponta, aliás, para uma solução benévola, como o conto "Noite de Almirante" tão bem evidencia. O fim do amor de Genoveva por Deolindo tem notas de um fatalismo irônico:
        “ - Pois, sim, Deolindo, era verdade. Quando jurei, era verdade. Tanto era verdade que eu queria fugir com você para o sertão. Só Deus sabe se era verdade! Mas vieram outras cousas...Veio este moço e eu comecei a gostar dele...
- Mas a gente jura é para isso mesmo; é para não gostar de mais ninguém...
- Deixa disso, Deolindo. Então você só se lembrou de mim? Deixa de partes.”

Em "A Cartomante" e "O Enfermeiro” aparece tragicamente a certeza ou a suspeita do homicídio.
Já no caso de Jacobina, personagem do conto "O Espelho", uma discussão sobre a natureza da alma, faz  com que ele assevere que cada criatura humana guarda em si duas almas.

Veja o enredo de alguns contos:
Em “Missa do galo” – primeiro conto - temos a narração de Nogueira contando uma conversa que teve com Conceição, uma senhora casada de trinta anos, quando ele tinha dezessete anos e estava hospedado na casa de Meneses, esposo de Conceição. Uma narrativa tensa, na qual a perspicácia de um leitor assíduo faz supor que havia um suposto triangulo amoroso, porém não se tem a certeza de nada, mas no diálogo dos personagens há muitas insinuações sedutoras, deixando uma brecha de dúvida no relacionamento entre Nogueira e Conceição.  Em “Uns Braços” temos também um relacionamento de atração de um rapaz jovem por uma mulher mais velha, em um jogo escondido de sedução feminina.
 
Os contos “Um homem Célebre” e “Cantigas de Esponsais” narram à ambição artística de dois músicos populares que anseiam compor uma boa música e ser lembrado por ela após sua existência, porém não conseguem e morrem antes, todos de maneira trágica e ao mesmo tempo cômica. Em “Teoria do medalhão” temos um conto feito totalmente de diálogos entre um pai e um filho, sendo que o segundo poucas vezes interfere na conversa, no qual o pai dá conselhos medíocres para o filho se tornar um medalhão (sábio que consegue respeito e fama) e conseguir facilmente sucesso na vida. Temos neste conto uma visão crítica da sociedade da época, que ainda está presente na contemporaneidade.

O conto “O Espelho” é uma narração contendo constantemente alegorias envolvendo por um lado à contradição humana, e a crença religiosa e por outro uma crítica disfarçada às crenças da sociedade. Uma narrativa cheia de simbologias e mistérios envolvendo traços de loucura em luta com a sanidade de um homem que afirma que o ser humano possui duas almas. Reflexões, filosofia, questionamentos, religiosidades entre outros traços estão presentes no conto.

Em “A Cartomante” temos mais uma narração perfeita de um triângulo amoroso, constituído por Rita mulher de Vilela e Camilo, seu amante e melhor amigo de Vilela. Com uma narrativa tensa com traços humorísticos e críticos é exposta a ingenuidade do homem em frente às artificialidades dos misticismos e crenças por oportunistas como a velha cartomante e as reviravoltas que trás consequentemente o amor, principalmente quando esse parece ser impossível socialmente e se concretizado tendo um final infeliz.

Nos contos “A chinela turca” e “Marcha fúnebre” temos um contraponto temático entre realidade e fantasia dos personagens protagonistas, temos a dúvida, a incerteza, questionamentos psicológicos do mundo interior das personagens e até reflexões filosóficas diante dos acontecimentos narrados. O primeiro trata da história de um bacharel que diante de um acontecimento tedioso acaba fantasiando uma realidade paralela na qual vive um pesadelo e a segunda história trata de um homem que após saber da morte de seu inimigo e de no caminho de casa ficar sabendo da morte de um homem que morreu "do nada", fica tendo sensações e fantasias de como seria morrer, assim de repente, sem sentir dor e, ainda imagina, como seria a repercussão de sua morte.

Em “Pai contra Mãe” tem-se uma visão crítica do comportamento egoísta e desumano do homem, isso no momento em que para poder ficar com o filho recém-nascido, Cândido Neves (espécie de caçador de escravos fujões) entrega uma escrava fugitiva e grávida para seu dono em troca de uma recompensa em dinheiro que consequentemente lhe daria a condição de ficar com o filho e não ter que abandoná-lo. Porém essa escolha traz consequências para a escrava, que acaba abortando o filho.

Em “Miss Dollar” temos um conto dividido em oito capítulos narrando a historia de um médico apaixonado e colecionador de cães que após achar e devolver para sua dona uma cadelinha galga – Miss Dollar - acaba por conhecer o amor de sua vida, porém para esse amor se concretizar ele passa por diversos contratempos, numa narrativa por vezes com traços de humor, e até mesmo romântica, apesar do final trágico e engraçado da cadelinha.

“Conto de Escola" é narrado em primeira pessoa por um narrador já adulto, que retorna e analisa criticamente um episódio ocorrido em sua infância.
A história contada por Pilar - o narrador - é a seguinte: numa segunda-feira, pela manhã, Pilar decidia se brincaria no morro de São Diogo ou no campo de Sant''Anna. Lembrando-se, porém, da sova de marmeleiro que o pai lhe dera por causa de dois suetos* na semana anterior, decide ir à aula.
Na aula, é interpelado por Raimundo - filho do professor que lhe oferece uma moedinha de prata ganha em seu aniversário. Em troca, Raimundo pede a Pilar que lhe explique a lição. Pilar aceita, mas, durante o negócio, percebe que Curvelo, um outro colega, prestava atenção neles. Curvelo, logo a seguir, delata os colegas ao professor Raimundo. Este, furioso, atira a moeda pela janela e castiga os meninos com a palmatória, recriminando-os seriamente pela transação.
Depois disso, Pilar promete a si mesmo que daria uma sova em Curvelo. Na saída, persegue-o , mas Curvelo consegue escapar.
Na manhã do outro dia, depois de ter sonhado com a tal moedinha, Pilar sai com a intenção de procurá-la, mas sua atenção é desviada pelo batalhão de fuzileiros, que marchavam ao som de tambores. Desiste das moedas e segue-os marchando. Conta-nos que voltou tarde para casa, " sem pratinha nos bolsos nem ressentimentos na alma" no final pondera que Raimundo e Curvelo foram os primeiros a lhe dar a noção da corrupção e da delação.

“O caso da vara”
Conta a história de um seminarista fugitivo, que tem medo de voltar para casa, pois sabe que o pai o levará de volta ao seminário. Então, Damião foge e se esconde na casa de Sinhá Rita. A mulher promete ajudá-lo e por isso Damião permanece. Porém, Sinhá Rita, tem uma escrava chamada Lucréia, uma garota que é maltratada por Sinhá Rita. Damião, vendo a situação, promete a si mesmo que iria apadrinhar Lucréia. Mas chega um momento, em que Sinhá Rita vai castigar Lucréia e pede a vara a Damião, que fica em dúvida entre ajudar Lucréia ou entregar a vara e receber a ajuda de Sinhá Rita. Por fim, ele decide entregar a vara.

“Uns braços”
É a história de Inácio, jovem de 15 anos que vai trabalhar como ajudante do ríspido solicitador (funcionário do Judiciário, algo entre procurador e advogado) Borges, morando na casa deste. É lá que acaba se encantando com os braços de D. Severina, companheira do seu patrão. Deve-se lembrar que na época em que se passa a história, 1870, não era comum uma mulher exibir tal parte do corpo. Mas, antes que se pense que ela era despudorada, deve-se lembrar que só o fazia por passar por certas dificuldades que tornava o seu vestuário falto de peças mais adequadas. Ainda assim, os breves momentos em que via a mulher e principalmente os braços dela eram, para Inácio, o grande alívio diante de um cotidiano tão massacrante. Até que um dia D. Severina percebe o interesse que desperta no moço. Demora a aceitar, pois considera-o apenas uma criança. Mas, quando vê o homem já na forma do menino, entra num sentimento conflitante, misto de vaidade e pudor. Por isso oscila entre tratar mal o rapaz e mostrar preocupação com o seu bem-estar. Até que num domingo ocorre a cena mais importante da história. D. Severina encontra Inácio dormindo na rede. Dá-lhe um leve beijo na boca. A senhora não sabe que naquele exato instante o garoto sonhava com o beijo dela e ele não sabe que era beijado realmente enquanto estava mergulhado na fantasia do seu sono. Pouco tempo depois, Borges dispensa o garoto de forma admiravelmente amistosa. O menino não vê mais D. Severina, guardando a sensação daquela tarde como algo que não ia ser superado em nenhum relacionamento de sua existência.

A análise do conto A Causa Secreta, mostra que na perfeita normalidade social de Fortunato - um senhor rico, casado e de meia-idade, que demonstra interesse pelo sofrimento, socorrendo feridos e velando doentes - reside, na verdade, um sádico, que transformou a mulher e o amigo num par amoroso inibido pelo escrúpulo. Este escrúpulo, que gera o sofrimento do par, é a causa secreta do prazer de Fortunato e de sua atitude de manipulação de que o rato, no conto, é símbolo (Garcia, o protagonista, estaca perante a representação do horror. Fascinado perante o gesto frio de Fortunato, Garcia não faz sequer um gesto. Apenas contempla o sócio torturar lentamente um rato. Cortes meticulosos, pata a pata, precediam a queima do mesmo no fogo. O lento ritual prolongava o prazer. O narrador não resume a cena em poucas palavras, mostrando-a por inteiro ao leitor).

“Mariana”: é um conto de lição cruel, mas realista, ao narrar as mudanças por que passou uma paixão no espaço de 18 anos.
Evaristo e Mariana mantiveram uma relação tórrida e descabelada, entrando em crise no momento em que, por pressões, ela estava para se casar com Xavier. Diante do amante, nosso protagonista, jura que a união “oficial” não ia diminuir a intensidade do enlace que, clandestinamente, estabeleciam. Pouco depois, por meio de flashback, sabemos que Mariana havia tentado suicídio, provavelmente em nome do sentimento que tinha por Evaristo, conflitante com a união que iria contrair. Este é impedido de vê-la. Parte, então, para a Europa num quase autoexílio, desligando-se quase que por completo das coisas do Brasil.
Sem grande explicação, 18 anos depois sente necessidade de voltar à pátria. Ao chegar, visita Mariana, encontrando-a mergulhada na dor de ter o marido, Xavier, doente terminal. É o que o impede de um contato mais aprofundado. Com a morte do moribundo, fica sabendo por meio de várias pessoas da intensidade do amor que havia entre o casal, o que já tinha sido indicado pela dor dela quando do último suspiro do esposo. Pouco depois, flagra-a voltando da igreja e percebe que ela fez de conta que não o havia visto.


Uma paixão tão fulminante fora esmagada pelo tempo, pois terminava de forma tão fria, ela evitando-o, ele encarando o fato num misto de indiferença e chiste.

Análise Literária "O alienista"

"O Alienista" - Análise do conto de Machado de Assis

Alienista: nome dado, antigamente, ao profissional dedicado ao estudo da loucura. Uma espécie de psiquiatra.

“O alienista” ajuda a inaugurar a fase realista de Machado de Assis e apresenta diversas características que a obra desse escritor apresentará a partir de então, tais como a análise psicológica e a crítica social. Devido a sua extensão e outras características, alguns críticos afirmam tratar-se de uma novela; mas como este texto não apresenta as principais características de uma novela (uma maior preocupação com o enredo, superficialidade psicológica das personagens, etc), “O Alienista” é mais comumente classificado como um conto.
Com o narrador onisciente em terceira pessoa, Machado de Assis consegue mostrar e explorar o comportamento humano além das aparências, expondo com grande ironia toda a vaidade e egoísmo do homem. 

Machado de Assis coloca em questão nesse conto as fronteiras entre o que é normal e o que é anormal através de um médico que se esforça em tentar entender os distúrbios psicológicos da população. Dessa forma, pode-se dizer que há uma proximidade entre a personagem do Dr. Simão Bacamarte com o próprio Machado de Assis, uma vez que o autor também está interessado em analisar as atitudes das pessoas e suas relações sociais.

Em torno da figura quase mítica do Dr. Bacamarte, que segue com rigidez e frieza suas teorias científicas, Machado de Assis dispõe outras personagens ricas em detalhes. Dentre toda espécie de tipos sociais, aparece D. Evarista, esposa dedicada, que ama e admira o marido. Porém, por mais que ela respeite todo o conhecimento e sabedoria do alienista, ela não segue suas recomendações médicas e tem ciúmes da dedicação que ele tem aos estudos em detrimento dela. Em contrapartida, temos Crispim Soares, que é o botânico da cidade. Ele admira, respeita e segue tudo o que o Dr. Bacamarte diz, porém, apenas por interesses próprios, de forma a conseguir vantagens através do alienista. Além dessas duas personagens, temos o barbeiro Porfírio, homem que representa o político preocupado somente em obter vantagens pessoais.

Estrutura da obra
Trata-se de um conto um tanto longo, estruturado em treze capítulos. Quanto à montagem, é interessante observar que Machado de Assis se fundamenta em possíveis "crônicas". Observe que, com alguma freqüência, ele se refere aos "cronistas" e às "crônicas da vila de Itaguaí" como, aliás, tem início O Alienista:"As crônicas da vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos vivera ali um certo médico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas." .
Também o fecho do conto apresenta a mesma referência: "Dizem os cronistas que ele morreu dali a dezessete meses, no mesmo estado em que entrou, sem ter podido alcançar nada". 
Foco narrativo
O narrador é em 3ª pessoa, portanto, onisciente. A intenção do narrador é a análise do comportamento humano: vai além das aparências e procura atingir os motivos essenciais da conduta humana, descobrindo, no homem, o egoísmo e a vaidade. A intencionalidade crítica do narrador não se reflete somente ao ser humano de forma geral. Ele critica, também, a postura do cientista e do extremo cientificismo do final do século XIX. Conseqüentemente, o narrador termina por criticar a Escola Naturalista.

Características de Machado de Assis encontradas no conto O Alienista
1. Frases Curtas. 
2. Linguagem correta
3. Conversa com o Leitor.
4. Análise psicológica das personagens

Casa de Orates - "Casa de Loucos". E, aparentemente, ele deseja servir à ciência. Porém, por trás dos atos aparentemente bons, surpreende-se a intenção verdadeira de Bacamarte:atingir a glória e ser a pessoa mais importante de Itaguaí. É Machado desmascarando a hipocrisia humana.
O objetivo de Simão Bacamarte - Conhecer as fronteiras entre a razão e a loucura. Na realidade, ele pretendia buscara glória, através de um estudo da patologia cerebral.Obs.: através de Bacamarte, Machado de Assis critica os cientistas da época, que, para ele, não tinham os conhecimentos suficientes e necessários. Esse conhecimento era bazófia (da boca para fora).
Simão Bacamarte e o sanatório - A aprovação cessa quando Simão Bacamarte recolhe, na Casa Verde, pessoas em cuja loucura a população não acredita. Para Simão Bacamarte, o homem é considerado um caso que deve ser analisado cientificamente.Obs.: Machado de Assis critica a postura cientificista que não vê o ser humano na sua integridade corpo x alma.

As teorias de Simão Bacamarte
Teoria 1: são loucos aqueles que apresentarem um comportamento anormal de acordo com o conhecimento da maioria.
Teoria 2: ampliou o território da loucura: "A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades, fora daí, insânia, insânia e só insânia."
Teoria 3: os loucos agora são os leais, os justos, os honestos e imparciais. Dizia que se devia admitir como normal o desequilíbrio das faculdades e como patológico,o seu equilíbrio.
Teoria 4: o único ser perfeito de Itaguaí era o próprio Simão Bacamarte. Logo, somente ele deveria ir para a Casa Verde.
Tempo / Ação
Percebe-se que toda a história se passa no passado, havendo o uso do flashback: "As crônicas da Vila de Itaguaí dizem que, em tempos remotos, vivera ali um certo médico: o Dr. Sr. Bacamarte.
"O tempos remotos" a que se referem as crônicas, pelas indicações dadas, se remontam à primeira metade do século XVIII (= reinado de D. João V). 
A ação transcorre, como já se viu, em Itaguaí, "cidadezinha do Estado do Rio de Janeiro, comarca de Iguaçu", conforme declara o crítico Massaud Moisés em nota de pé-de-página da edição que estamos consultando.

O conto
1. Aspectos de crítica sócio-política: Na figura do Porfírio, analisa-se o político sempre buscando vantagens pessoais. No povo da cidade de Itaguaí, percebe-se a submissão, a fácil manipulação, bastando, para isso, conhecimento ou liderança.
2. Humor amargo de Machado de Assis - visão irônica e amarga que enfatiza aspectos negativos denunciadores da frustração humana: o autor utiliza o humor para criticar a hipocrisia humana, provocada por um sistema social regido pela falta de valores. O homem, para Machado, é acima de tudo, ganancioso e movido pela intenção de poder.
3. "Simão Bacamarte aparece como símbolo de um saber duvidoso, pois não se revela senão em estado de pânico em que põe o universo, quando ele procura determinar uma norma geral de conduta para o comportamento humano,igualando, rasteiramente, todos os indivíduos". "É a deformação do "cientista" que toma como verdade absoluta os pressupostos da ciência e comete, em seu nome, equívocos sucessivos sem dar pelo absurdo de suas pretensões". Machado de Assis chama a atenção para a relatividade da ciência. Observe-se que, a cada teoria que ele cria, ele pensa estar diante de uma verdade absoluta para, em seguida, perceber que isso não é verdade.

4. Em O Alienista, Machado de Assis revela uma visão satírica e irônica da mentalidade cientificista que marca o século XIX - O Naturalismo. O Realismo aproveita, também, nos seus romances, algumas características filosófico-científicas da época. Porém, condena os excessos do Naturalismo.

Personagens

Dr. Simão Bacamarte - é o protagonista da estória. A ciência era o seu universo – o seu "emprego único", como diz. "Homem de Ciência, e só de Ciência, nada o consternava fora da Ciência" (p. 189). Representa bem a caricatura do depotismo cientificista do século XIX (como está no próprio sobrenome). Acabou se tornando vítima de suas próprias idéias, recolhendo-se à Casa Verde por se considerar o único cérebro bem organizado de Itaguaí. 

D. Evarista - é a eleita do Dr. Bacamarte para consorte de suas glórias científicas. Embora não fosse "bonita nem simpática", o doutor a escolheu para esposa porque ela "reuni condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem", estando apta para dar-lhes filhos robustos, são e inteligentes". Chegou a ser recolhida à Casa Verde, certa vez, por manifestar algum desequilíbrio mental. 
Crispim Soares - era o boticário. Muito amigo do Dr. Bacamarte e grande admirador de sua obra humanitária. Também passou pela Casa Verde, pois não soube "ser prudente em tempos de revolução", aderindo, momentaneamente, à causa do barbeiro. 
Padre Lopes - era o vigário local. Homem de muitas virtudes, foi recolhido também à Casa Verde por isso mesmo. Depois foi posto em liberdade porque sua reverendíssima se saiu muito bem numa tradução de grego e hebraico, embora não soubesse nada dessas línguas. Foi considerado normal apesar da aureola de santo. 
Porfírio, o barbeiro - sua participação no conto é das mais importantes, posto que representa a caricatura política na satírica machadiana. Representa bem a ambição de poder, quando lidera a rebelião que depôs o governo legal. Foi preso na Casa Verde duas vezes; primeiro, por Ter liderado a rebelião; segundo, porque se negou a participar de uma Segunda revolução: "preso por Ter cão, preso por não Ter cão" (pg 229). 
Outros figurantes aparecem no conto. Cada um representando anomalias e possíveis virtudes do ser humano. Há loucos de todos os tipos no livro. Daí a presença de tanta gente...

Enredo

O protagonista, depois de títulos e feitos conquistados na Europa (apesar de suas ações aparentemente disparatadas, a personagem é alguém amplamente aceito pelo Estado, estabelece-se em Itaguaí com a ideia de criar um manicômio (Casa Verde), que lhe seria um meio de estudar os limites entre razão e loucura. No entanto, sua metodologia de estudo é que o diferenciará radicalmente de Machado de Assis. Em sua frieza analítica, Simão assumirá um tom tão rígido que acabará se tornando caricaturesco, falho e absurdo (parece haver aqui critica ao rigor analítico do determinismo cientificista que andava em moda na literatura da época de Machado de Assis, principalmente a de aspecto naturalista). O problema é que o especialista vem investido do apoio oficial de todo o aparelho do Estado, o que faz alguns críticos enxergarem nessa obra não uma preocupação com a abordagem psicológica, mas uma crítica de alcance político. O conto seria, portanto, uma forma de questionamento contra o autoritarismo massacrante do sistema. 
Os primeiros internados no hospício foram casos notórios e perfeitamente aceitos pela sociedade de Itaguaí. Mas começa a haver uma sequência de escolhas que surpreendem os cidadãos da pequena cidade. O primeiro é o Costa, que havia torrado sua herança em empréstimos que se tornaram fundo perdido. O pior é que se sentia envergonhado de cobrar seus devedores, passando a ser até maltratado por estes. Depois foi a prima do mão-aberta, que tinha ido defender seu parente com uma mirabolante história de que a decrepitude financeira se devia a uma maldição (o mais hilário é que essa mulher fora ao hospício para defender o primo e, após contar tal história, acaba sendo na hora internada. Aumenta, aqui, o terror sobre uma figura tão déspota e traiçoeira como Simão Bacamarte, pelo menos na visão do povo de Itaguaí).
Após esses, é internado o barbeiro Mateus (profissional que faz albardas, ou seja, selas para bestas de carga. É uma profissão bastante humilde, tanto que a palavra albarda também significa  humilhação. Há, portanto, uma carga negativa associada a essa profissão. Ter isso em mente ajuda na interpretação do episódio), que se deliciava em ficar horas admirando o luxo de sua enorme casa, ainda mais quando notava que estava sendo observado. Essa personagem serve para que reflitamos questões como a valorização exagerada do status e até mesmo uma análise do preconceito, pois a maioria da cidade não aceitava um homem de origem e trabalho humilde possuir e ostentar tanta riqueza. 
Apenas esses atos já foram suficientes para deixar a cidade em polvorosa. Assim, todos anseiam pela volta de D. Evarista, esposa de Simão Bacamarte, que havia ido para o Rio de Janeiro como maneira de compensar a ausência do marido, tão mergulhado que estava em seus estudos (é interessante lembrar a relação que o casal estabelece. Ela é extremamente apaixonada, algumas vezes dramática (se bem que o narrador deixa um tom de descrédito ao sempre afirmar que essa caracterização é baseada nos cronistas da época). Ele é frio, unindo-se a uma mulher não preocupado com sua beleza, mas com aspectos práticos, como a capacidade, o vigor para reprodução. Chega até a bendizer o fato de ela não ser bonita, pois seria menos dor de cabeça). Para os cidadãos, ela era a esperança de salvação daquele terror constante e aparentemente arbitrário. Por isso, a maneira festiva com que foi recebida.
No entanto, em meio a um jantar em homenagem à salvadora senhora, Martim Brito, um jovem dotado de exibicionismo de linguagem, faz um elogio um tanto exagerado: Deus queria superar a Si mesmo quando da concepção de D. Evarista. Dias depois, o janota estava internado.
Logo após, Gil Bernardes, que adorava cumprimentar todos, até mesmo crianças, de maneira até espalhafatosa, é confinado. Depois Coelho, que falava tanto a ponto de alguns fugirem de sua presença.
Pasma diante de aparente falta de critério, Itaguaí acaba tornando-se um barril de pólvora prestes a explodir. Aproveitando-se dessa situação, o barbeiro Porfírio, que há muito queria fazer parte da estrutura de poder, mas sempre tinha sido rejeitado, arma um protesto com intenções revolucionárias (note que a questão é pessoal: Coelho tinha negócios importantes com Porfírio que tinha sido interrompidos com a internação, sem mencionar o sonho por poder da personagem é disfarçada em preocupações altruístas). Bem machadiano esse aspecto dilemático da realidade). 
Depois de ter seu requerimento desprezado pela Câmara de Vereadores, une-se a vários outros descontentes. Há um esmorecimento quando se descobre que Simão havia pedido para não receber mais pelos internos da Casa Verde. Configura-se a ideia de que as inúmeras reclusões não eram movidas por corruptos interesses econômicos.
No entanto, Porfírio consegue fôlego e institui uma insurreição, que recebe até o seu apelido: Revolta dos Canjicas. Vão até a casa do alienista, mas este os recebe, de sua sacada, de forma equilibrada e sem a mínima disposição em se demover de sua metodologia científica. A fúria, que tinha sido momentaneamente aplacada pela frieza do oponente, é instigada quando este lhes dá as costas e volta aos seus estudos.
Providencialmente, a polícia da época (dragões) surge com a intenção de sufocar o levante. O mais espantoso é que, justo nesse momento em que o jogo parecia perdido para Porfírio, tudo se volta a seu favor: os componentes da guarda, provavelmente enxergando injustiça na ditadura científica, passam para o lado dos revoltosos. Era tudo o que o líder mais queria – poder absoluto.
Surpreendentemente (ou não), fortalecido, Porfírio esquece a Casa Verde e se dirige para a Câmara dos Vereadores para destituí-la. Senhor supremo, no dia seguinte encontra-se com o alienista, que já friamente (como de costume) esperava ser demitido. Impressionantemente, o novo governante afirma que não vai meter-se em questões científicas. 
Configura-se aqui uma crítica a tantas revoluções que ocorreram na História e que estão por ocorrer. Entende-se que elas são na realidade movidas por interesses coletivos autênticos, mas que acabam sendo manipuladas e servindo de trampolim para que determinadas pessoas subam ao poder por outros motivos, mais egoístas.
Provavelmente todas essas ideias passaram na mente de Simão no momento em que Porfírio veio expressar-lhe apoio em seu trabalho sanitário. Tanto que pergunta quantos pessoas haviam morrido na revolução. São os dois casos que descobre como matéria de estudo. O primeiro é o fato de gente ter perdido a vida por um levante que tinha a intenção de derrubar a Casa Verde e agora tudo ficar esquecido. O segundo é o Porfírio antes se levantar ferozmente contra Porfírio e agora considerá-lo de extrema utilidade para o seu novo governo. O que virá daí já se sabe.
Dias depois, 50 apoiadores da revolução são internados. Porfírio ficou desnorteado, mais ainda porque um seu opositor, o barbeiro João Pina, levanta-se contra. Na realidade, este não estava interessado em questões sociais, mas tinha uma rixa pessoal com o outro barbeiro. Conseqüência: arma uma balbúrdia tamanha que acaba derrubando o Canjica. 
Mas o novo poder não destitui a Casa Verde. Fortalece-a. Mais gente é confinada. Crispim, assistente e bajulador do alienista, que apóia Porfírio no momento que pensava que Simão havia caído. Depois o Presidente da Câmara dos Vereadores. O clímax deu-se quando a própria esposa do alienista, extremamente preocupada com jóias e vestidos, a ponto de não conseguir dormir por não saber como iria numa festa, acaba sendo internada. Ao mesmo tempo que era a prova de que Bacamarte não tinha intenções egoístas, pois até a própria consorte tinha se tornado vítima, tornava também patente a arbitrariedade a que Itaguaí estava submetida.
Certo tempo depois, como num feito rocambólico, a cidade recebe a notícia de que Simão determinou a soltura de todos os “loucos” da Casa Verde. Na verdade, o cientista havia notado que 75% dos moradores estavam confinados. Estatisticamente, portanto, sua teoria estava errada, merecendo ser refeita.
Esse recuo, além de demonstrar um rigor científico louvável, pois demonstra que o protagonista não está preocupado com vaidade, tanto que reconhece que erra, exibe mais elementos interessantes para a interpretação do conto. Pode-se dizer que exibe uma questão polêmica: quem é normal? O que segue a maioria? Se 75% apresentam desvios de personalidade, desvios do padrão (era essa, finalmente revelada, a regra que determinava quem era e quem não era são), então o normal seria não seguir um padrão. Fora essa questão polêmica, deve-se perceber a força que o Estado, por meio da Casa Verde (tanto é que mudavam os poderosos, mas o sistema continuava o mesmo), assumia em determinar quem estava na linha e quem não estava. Todos tinham de se encaixar a uma norma.
Enfim, dentro da nova teoria (louco era quem mantinha regularidade, firmeza de caráter), o terror recomeça. O vereador Galvão é o primeiro a ser internado, porque havia protestado contra uma emenda da Câmara que instituía que somente os vereadores é que não poderiam ser reclusos. Sua alegação era a de que os edis não podiam legislar em causa própria. A esposa dedicada de Crispim é também alocada na Casa Verde. O barbeiro fica louco. Um inimigo de Simão se vê na obrigação de avisar o alienista do risco de vida que o cientista corria. Por tal desprendimento, na hora acaba sendo confinado. Até Porfírio, volta a ser preso, pois, conclamado a preparar outra revolta, recusa-se, pois se tocou que gente havia perdido a vida na Revolta dos Canjicas para o resultado ser infrutífero. Ao ser preso, resumiu bem sua situação: preso por ter cão, preso por não ter cão.
Alguns casos são interessantes. Pessoas que se demonstram firmes em sua personalidade são consideradas curadas quando exibem algum desvio de caráter. Assim foi com um advogado de conduta exemplar que só não foi internado porque havia forçado um testamento a ter a partilha do jeito que queria. Ou então quando a esposa do Crispim xinga-o ao descobrir o verdadeiro caráter do marido.
Porém, fora esses casos, Simão vai percebendo que seu segundo método era falho, pois ninguém naturalmente tinha uma personalidade reta, perfeita. Com exceção dele próprio. É por isso que, após muita reflexão e muita conversa com pessoas notórias da cidade, principalmente o padre (que já havia sido internado), conclui que o único anormal era ele próprio. A despeito dos protestos de muitos, inclusive de D. Evarista, decide, pois, soltar todos mais uma vez e encerrar-se sozinho na Casa Verde para o resto de sua vida.


28 de jun de 2016

ANÁLISE LITERÁRIA “O SANTO E A PORCA”, Ariano Suassuna

Sobre o autor:

Em 16 de junho de 1927, filho de Cássia e João Suassuna, nascia Ariano Vilar Suassuna, em Nossa Senhora das Neves, atual João Pessoa, capital da Paraíba. No ano seguinte, seu pai deixa o governo e a família passa a morar no sertão, na fazenda Acauhan, experiência que serviria para, anos depois, iniciar o jovem no mundo interiorano que serviria de cenário para toda a sua obra. Depois do assassinato de seu pai por motivos políticos no Rio de Janeiro, sua família mudou-se para Taperoá, onde morou de 1933 a 1937. Nessa cidade, Ariano fez seus primeiros estudos e assistiu pela primeira vez a uma peça de mamulengos e a um desafio de viola, cujo caráter de “improvisação” seria  uma das marcas registradas também da sua produção teatral, desse modo, mais aspectos da cultura nordestina seriam incutidos em sua formação. Em 1942, passou a viver em Recife, onde terminou em 1945, os estudos secundários no Ginásio Pernambucano e no Colégio Osvaldo Cruz. No ano seguinte, iniciou a faculdade de Direito onde conheceu Hermílio Borba Filho e junto com ele fundou o Teatro do Estudante de Pernambuco. Uma mulher vestida de sol, sua primeira peça, escrita em 1947, no ano seguinte a peça Cantam as Harpas de Sião ou Desertor da Princesa, foi montada pelo Teatro do Estudante de Pernambuco. Em 1950, forma-se na Faculdade de Direito, mesmo ano em que recebe o Prêmio Martins Pena pelo Auto de João da Cruz. Para se curar de uma doença pulmonar, viu-se obrigado a se mudar novamente para Taperoá, onde escreve e monta a peça Torturas de um coração. Em 1956, volta para Recife se dedica à advocacia e continua a escrever peças: O castigo da soberba (1953), O rico avarento (1954) e o Auto da Compadecida (1955). Em 1957, abandona a advocacia e se torna professor de Estética na Universidade Federal de Pernambuco, escreve em 1957 a peça O Casamento suspeitoso e O santo e a porca. Suas comédias são de gosto popular, fortemente influenciadas pelo teatro grego, o teatro ibérico do século XVI e pela Comédia Del’Arte, mesclando influências da cultura nordestina, como as parlendas, o cordel e o repentismo.
                                                                                             
v  Na elaboração de O Santo e a Porca, Ariano Suassuna foi diretamente influenciado pela peça
Aulularia, de Plauto, autor romano com influências gregas. Como Suassuna mesmo chegou a afirmar várias vezes, essa não é uma peça original, afinal, muito dela se origina em variações (relidas num contexto nordestino) da trama de Plauto. Em Aulularia, o protagonista é “Euclião” (daí a escolha do nome Eurico, ou Euricão), que encontra uma panela de ouro deixada por seu avô. ‘Esse achado’ aliado ao casamento de sua filha com um velho rico, origina o mote central de um texto ágil cheio de encontros, desencontros e ambiguidades.
                Suassuna adaptou o texto de Plauto, mas desenvolveu uma releitura dentro do contexto nordestino da literatura de cordel e criou uma trama mais complicada.
                Essa intertextualidade com a peça de Plauto não se resume apenas a uma releitura adaptativa dos personagens. O próprio cenário da obra remete diretamente à peça do dramaturgo latino, exemplos:

Casa de Euricão/ Templo de Santo Antônio = Templo de Bona Fides
Festa de São João = Festa de Ceres
Cemitério = Bosque de Silvano
Hotel de Dadá= Mercado (Fórum).

v  TEMATICA
Tema central: a avareza humana
Tema filosófico: a relação do mundo material com o espiritual
Em literatura: lembra os conflitos barrocos de ordem religiosa: Euricão Árabe terá de escolher entre a loucura e o discernimento, a ilusão e verdade, o permanente e o efêmero. Oscilação entre o santo e o profano: representação do movimento entre espiritualidade e materialidade natural do ser humano. Pode-se ver nessa peça um claro caráter moralizante, típico dos textos católicos. O maniqueísmo é marcado pela criação de extremos e representado quando Euricão sente-se obrigado a escolher entre o material (dinheiro) e o espiritual (Santo Antônio).

v  ESPAÇO
                Na peça O santo e a porca, a ação se passa na sala da casa de Euricão, o que pode ser comprovado nas indicações cênicas. Estas indicações devem ser confrontadas com o texto interpretado pelos atores, pois a linguagem está relacionada com a demarcação espacial e ambas se unem pela ação dramática. No texto, a casa do protagonista é vista por ele próprio como seu território, protegido pelo santo de devoção e como sua fortaleza, onde ele guarda seus dois tesouros – a filha e a porca

v  TEMPO
                Em O santo e a porca, o tempo intervém na ação de várias formas, estabelecendo uma cronologia que reconstitui o desenrolar dos acontecimentos, fornecendo um tempo próprio para cada personagem, através de marcas temporais que aparecem no texto ou tomando uma dimensão metafórica.
                O próprio diálogo das personagens fornece indicações que inscrevem a ação dentro de um tempo real e juntamente com a divisão em atos, cenas e quadros compõem as principais marcações temporais no momento da representação.
               O tempo da ficção obedece à concepção clássica das unidades e da verossimilhança. A ação se passa num período de 24 horas dividido entre os três atos da peça. O tempo da representação é caracterizado pela continuidade.
                Apesar da aparente simplicidade na escrita é preciso prestar atenção nas rubricas (indicações entre parênteses). Elas acabam fazendo o papel do narrador e orientam a cena. Na peça de Ariano Suassuna, o tempo da representação é marcado da seguinte forma:
Primeiro ato: Apresentação do problema e das personagens – Tempo da espera por Eudoro (ações se passam no período da manhã).
Segundo ato: Complicação da situação, ponto de tensão – Tempo da espera pela entrevista e reviravoltas de Eurico tentando proteger sua porca (as ações se passam no período da tarde).
Terceiro ato: Tempo das entrevistas e das revelações – desenlace da trama, consumações amorosas e descobertas da falta de valor da porca (as ações se passam no período da noite).
                Estas marcações ficam muito claras nas falas das personagens. Conclui-se então que na representação da peça, a ‘entrevista’ é o marcador temporal que a divide em dois grandes momentos, antes dela, percebe-se o clima de tensão, de espera, da expectativa que culminará na reconciliação dos casais. A seguir, situa-se os pedidos casamento, a descoberta do segredo de Euricão (a porca) e sua decepção.

v  PERSONAGENS
                As duas forças principais que regem um texto dramático são as personagens e o enredo. Nesta obra eles são quase indissociáveis, o autor constrói aquilo que ele próprio denomina personagens-tipo: cada um possui características e personalidades próprias e servem para retratar as mais variadas facetas do comportamento humano.

Caroba: A escolha do nome provém da associação com a árvore, segundo o autor, grande e forte, relacionado com sua desenvoltura para encontrar modos de resolver as situações e tentar garantir seu próprio bem estar. Ela é empregada de Euricão e quem desenvolve toda rede de intrigas que envolve os casamentos, é esperta, articula as ações do texto.
Pinhão: Seu nome significa “fruto rústico”. Empregado de Eudoro, noivo de Caroba. Representa a busca da liberdade. Usa muitos ditados populares, representando a voz do povo dentro da peça.
Euricão: Engole Cobra, Eurico Árabe, é o protagonista da peça, pai de Margarida e irmão de Benona, personagem avarento e ao mesmo tempo religioso. Se questiona muitas vezes na peça o que seria mais importante para ele, o Santo Antônio ou seu dinheiro.
Margarida: flor bucólica, filha de Euricão e noiva (às escondidas) de Dodó. Personagem que desencadeia dois pólos de interesse: material e sentimental.
Dodó: redução do nome Eudoro, seu pai, indicando o caráter de submissão do filho. Noivo de Margarida, muito

apaixonado faz qualquer coisa para ficar com a amada, até mesmo fingir ser aleijado.
Benona: Alusão à personagem de Plauto (Eunomia - em grego, ordem bem regulada), é irmã de Euricão, ex-noiva de Eudoro, representa os pudores e recatos, apaixonada por seu antigo noivo.
Eudoro: Eudoro, nome composto por eu (do grego bem, bom) e dôron (o generoso). Pai de Dodó, ex-noivo de Benona e pretendente de Margarida. Representa a burguesia, quer se casar para evitar a solidão, julga que seu dinheiro é suficiente para garantir-lhe um bom casamento.


v  PRINCIPAIS CONFLITOS EM O SANTO E A PORCA:
                Na peça de Suassuna temos os conflitos ligados às atitudes de Euricão, o que pode ser identificado em algumas passagens da obra:
                a) avareza de Euricão. “Dodó – Isso é um louco! Você não imagina até onde vai a avareza dele. Desde que estou aqui só se comeu à noite uma vez. E ele exige que a gente pague a refeição, porque acha que mais de uma por dia é luxo”.
                b) seu apego demasiado à porca e sua dedicação a ela como substituta da esposa que o abandonou e seu medo de perdê-la. Euricão – “Ladrões, ladrões! Será que me roubaram? É preciso ver, é preciso vigiar! Vivem de olho no meu dinheiro, Santo Antonio! Dinheiro conseguido duramente, dinheiro que juntei com os maiores sacrifícios. Eurico Árabe, Eurico Engole-Cobra! Pois sim! Mas é rico e os que vivem zombando dele não têm a garantia de sua velhice. Ah, está aqui, os ladrões ainda não conseguem furtar nada. Ah! Minha porquinha querida, que seria de mim sem você? Chega dá uma vontade da gente se mijar! Fique áí até outra oportunidade. Se eu pudesse comeria você inteirinha” (...).
                c) sua devoção a Santo Antônio como protetor de seu lar e da sua porca: Euricão – “Agora sim, você, Santo Antônio, deve se contentar agora com minha pobreza e minha devoção. Eu não o esqueci. Não deixe que esses urubus descubram meu dinheiro! Faça isso, meu santo e a banda de jerimum que eu ia dar a Caroba será sua. Menos as sementes, viu? As sementes eu quero para fazer xarope e vender no armazém. Ganha-se pouco, mas sempre é alguma coisa para enfrentar a crise e a carestia!”
                d) a colocação da porca no socavão e a retirada da porca do socavão para a sala e para a proteção de Santo Antônio: Euricão – “Aí, gritaram “Pega ladrão”, quem foi? Onde está? Pega, pega! Santo Antônio, que diabo de proteção é essa? Ouvi gritar “Pega o ladrão”. Ai, a porca, ai meu sangue, ai minha vida, ai minha porquinha do coração! Levaram, roubaram! Ai, não, está lá, graças a Deus! Que terá havido, minha Nossa Senhora? Terão desconfiado porque tirei a porca do lugar? Deve ter sido isso, desconfiaram e começaram a rondar para furtá-la” É melhor deixá-la aqui mesmo, à vista de todos, assim ninguém lhe dará importância! Ou não? Que é que eu faço, Santo Antônio? Deixo a porca lá ou a trago para cá, sob sua proteção? Desde que ela saiu daqui me começaram as ameaças! É melhor trazê-la com a capa, porque alguém pode aparecer. Santo Antônio faça com que não apareça ninguém! Não deixe ninguém entrar aqui. Vou buscar minha porquinha, mas não quero ninguém aqui”.
                e) a retirada da porca de casa, dos cuidados do santo para o cemitério, “onde tudo se perde e não se acha nada” e a colocação da porca no socavão ao lado do túmulo da esposa: Euricão – “ Ah! Agora estou só,  Estará escondido? O quarto está vazio. E aqui? Ninguém. Agora, nós, Santo Antônio! Isso é coisa que se faça? Pensei que podia confiar em sua proteção, mas ela me traiu! Você, que dizem ser o santo mais achador! É isso, Santo Antônio é achador e está ajudando achar minha porca! Eu devia ter me pegado é com um santo perdedor! Agora não deixo mais meu dinheiro aqui de jeito nenhum. O cemitério da igreja! É aqui perto e é lugar seguro. Entre o túmulo de minha mulher e o muro, há um socavão: é lá que guardarei meu tesouro. Prefiro a companhia dos mortos à dos vivos, ali minha porca ficará em segurança. Com medo dos mortos, os vivos não irão lá e os mortos, ah, os mortos, não desejam mais nada, não têm nenhum sonho a realizar, nenhuma desgraça a remediar. Ao cemitério! Escondo a porta no socavão e à noite, quando todos estiverem dormindo, cavo a terra e hei de enterrá-la o mais fundo que puder. E você, Santo Antônio, fique-se ai com sua proteção e seu poder de encontrar. Lá, meu ouro, meu sangue, estará em segurança: o mundo dos mortos é mais tranqüilo e, digam o que disserem os idiotas, lá é o lugar em que se perde tudo e não se acha nada”!
                f) o roubo da porca (primeira perda): Euricão – ‘ Ai, ai! Estou perdido, estou morto, fui assassinado! Para onde correr? Para onde não correr? Pega, pega! Mas pegar a quem? Não vejo nada, estou cego. Não sei mais onde vou, não sei mais onde estou, não sei mais quem sou! Ah, dia infeliz, dia funesto, dia desgraçado! Que fazer agora da vida, tendo perdido aquilo que eu guardava com tanto cuidado? Roubei-me a mim próprio, furtei a minha alma! Agora outros gozam com ela, para meu desgosto e prejuízo? Não, é demais pra mim”! (cai desfalecido, chorando).
                g) a devolução da porca: Pinhão – “um momento, me solte! Vá pra lá! Eu confesso que furtei essa porca, mas o senhor não ganha nada mandando me entregar à polícia. Eu morro e não digo onde ela está! Todo mundo fala em furto, em roubo e só se lembra da porca! Está bem, eu furtei a porca! Sou católico, li o catecismo e sei que isso não se faz! (...) Pois bem, proponho um acordo a todos. Seu Eudoro não emprestou vinte contos a Seu Eurico? Eu entrego a porca por esse vinte contos’.
(...) Euricão – Ah! Santo Antônio poderoso! Até que enfim você se compadeceu de seu velhinho, de seu devoto de todos os momentos e de todas as horas! Pensei que estava obrigado a escolher entre o santo e a porca! Mas Santo Antônio não podia me exigir esse absurdo! Ai, minha porquinha, que alegria, que alegria apertá-la de novo contra o meu coração! Que alegria beija-la! Ó minha esperança, ó minha vida! Agora que a encontrei não largarei um só instante! Afastem-se, saiam de perto de mim! Agora é assim, minha porca e eu!
                h) a grande decepção (segunda e derradeira perda): Eudoro – Eurico, o dinheiro não é tudo neste momento. Você tem sua filha, tem a todos nós que agora somos sua família. Deixe de depositar toda a sua vida nesse dinheiro! Não dê tanta importância ao que não vale nada, porque...
Euricão – Por que o quê? Que é que você quer dizer? Diga, termine!
Eudoro – Será melhor dizer mesmo, Eurico?
Euricão – Dizer o quê? Diga logo, é melhor do que me esconder alguma coisa grave. Que é?
Eudoro – Esse dinheiro está todo recolhido, Eurico! Tudo o que você tem aí não vale nem um tostão.
Euricão – Nossa Senhora, Santo Antônio! Você jura pelos ossos de sua mãe como é verdade?

Eudoro – Juro.

IMPORTANTE: Além dos personagens humanos, temos dois objetos que possuem tanta importância, Santo Antônio (santo casamenteiro e protetor daqueles que perdem algo de valor), representando o sagrado e a fé e a porca, que figura como oposição, o profano, o que faz frente ao religioso, objeto de cobiça, representa a avareza de Euricão. O porco é o símbolo de impureza, de pecado, representa a avareza de Euricão, um dos 7 pecados capitais; porca: (para os egípcios) abundância, criação de vida.

v  Outro fator relevante é a presença da ambiguidade, um dos recursos utilizados pelo autor para
provocar os efeitos cômicos e desenrolar as intrigas e confusões na narrativa, uma vez que os fatos são interpretados de modo duplo por Euricão e outros personagens. 

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